COMEMORAÇÃO - Amor ao folclore atravessa gerações
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sábado, 19 de julho de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A maioria deles não tem nenhum vínculo familiar, mas a relação que mantém se assemelha em quase tudo a uma família tradicional. Os personagens vão desde o animado irmão mais novo ao birrento tio que cobra disciplina. E assim como em uma família, as brigas acontecem, mas o amor sempre fala mais alto. E é o amor à tradição e à cultura que continua mantendo um dos grupos folclóricos mais antigos do Paraná. Trata-se do Grupo Folclórico Polonês Wisla que está completando 75 anos de atividade. Com quase 200 integrantes, o Wisla reúne desde descendentes poloneses a pessoas que procuram o grupo para conhecer a cultura daquele país. E nunca mais saem.
É o caso da estudante de Administração Débora Ramos de Oliveira, de 24 anos. Aos 12 anos, ela foi com uma amiga da mãe dela a um ensaio do grupo. Mesmo sem ter descendência polonesa, se interessou pelas danças e trajes e quis ingressar na companhia. ''Minha mãe não podia me levar e tive que esperar até completar 14 anos, quando já andava sozinha, para poder participar'', conta.
Quando entrou no grupo, Débora não sabia dançar nem cantar. Hoje é instrutora do grupo infantil e ensina as danças folclóricas para quase 50 crianças. O curioso é que há dois anos, grávida da pequena Gabrielle, Débora continuou dançando. Quando a menina nasceu, a estudante também não interrompeu os ensaios e levava o bebê para assistir aos espetáculos. Com tanto estímulo não foi difícil a garotinha se interessar pela dança polonesa.
Atualmente, Gabrielle, que acaba de completar dois anos, é a dançarina mais jovem do grupo infantil. ''Ela faz tudo direitinho, sabe as marcas delas e quando tento trocá-la de lugar ela diz que está errado'', orgulha-se a mãe.
E não é difícil encontrar entre os integrantes do grupo, filhos de pais que dançavam (e dançam) na companhia e até netos e bisnetos de uma geração que deu o pontapé inicial ao grupo. Leandro Iulian Kluch, de 32 anos, conta que a participação no grupo folclórico vem de geração. ''Meu avô, que já morreu, cantava no grupo. Meu pai e minha mãe também participavam dançando.'' Aos 12 anos, a pedido da mãe, Leandro decidiu entrar para o grupo também. ''Entrei a pedido da minha mãe, mas depois gostei tanto que estou até hoje.''
Leandro é o dançarino mais antigo do grupo, com 20 anos de participação. ''A gente briga, eu fico uns dois meses sem ir, mas depois volto correndo. O grupo é como uma família, não tem como se separar dele'', constata. Para ele, nem mesmo as seis horas de ensaio nos finais de semana o impedem de desistir de dançar. ''Minha mulher reclama, mas acaba entendendo'', diz.
E tanto tempo de ensaio se justifica pela agenda intensa do grupo folclórico. O Wisla se apresenta em festivais de dança, em festivais dedicados ao folclore, em apresentações para escolas e também promove apresentações particulares. A programação inclui eventos no Brasil e exterior.
O presidente do Wisla, Elmar Guarize, ressalta que essa agenda exige dedicação intensiva do grupo, que é dividido em três categorias. O infantil, que reúne crianças de dois a nove anos; o juvenil, de dez a 15 anos e o adulto, a partir de 16 anos. Além do coral, que muitas vezes tem programação independente.
Atualmente, o Wisla tem mais de 40 coreografias no repertório e acumula 15 trajes típicos que são confeccionados pelos próprios integrantes. ''Toda a família dos integrantes se envolve na confecção dos trajes e até os homens bordam os figurinos'', conta Guarize.
As roupas polonesas utilizadas nas coreografias têm uma peculiaridade: são muito coloridas e em sua maioria leva as cores vermelho e azul. Além disso seguem fielmente as características dos trajes originais. Já as danças possuem características diversificadas dependendo da região de origem. Guarize explica que as danças polonesas são dividadas em nacionais e regionais. Entre as nacionais está a Krakowiak. ''Nessa dança, a melodia muda muito e parte da alegria para nostalgia muito rápido. Essa é uma característica de quase todas as danças polonesas'', explica.
A Krakowiak é uma das danças mais antigas da Polônia. No começo era dançada apenas pelo povo, mas mais tarde invadiu os salões da nobreza. Seus movimentos são firmes, rápidos e decididos como quase todas as danças típicas. ''Os passos das coreografias polonesas são bem variados, mas quase sempre incluem as tesouras e os saltos'', diz o presidente do Wisla.
Mas mesmo com essas aparentes dificuldades, para entrar no grupo, não é preciso ter nenhum conhecimento prévio, nem de dança nem de canto (os integrantes mesclam aulas das duas artes). Também não é preciso ter descendência polonesa. ''O grupo conta com descendentes de negros e até japoneses. Para participar basta querer conhecer a cultura da Polônia'', salienta Guarize.
O Grupo Folclórico Polonês foi fundado em 1928 pelo professor de balé Tadeusz Morozowicz, que decidiu montar algumas coreografias folclóricas polonesas para mostrar aos seus amigos e matar a saudade da velha pátria. Reorganizado em 1953 para os festejos do centenário do Paraná, o grupo só incorporou a palavra Wisla (rio que corta a Polônia) em 1960.
Nestes 75 anos, o Wisla fez inúmeras apresentações públicas. No Bosque do Papa, em Curitiba, já faz parte das atrações permanentes, como a Bênção dos Alimentos, Festa da Padroeira e Aniversário da Visita do Papa a Curitiba. O grupo também já participou de 42 edições do Festival Folclórico e de Etnias do Paraná.
Nos próximos meses, a agenda do grupo está cheia. Enquanto parte dos integrantes do coral seguiu na última terça-feira para Polônia, para participar do Festival Mundial de Encontro de Corais que acontece no início de agosto, o grupo infantil e juvenil se prepara para uma apresentação no Teatro Guaíra, no dia 20 de agosto. No segundo semestre, o Wisla chega a fazer três apresentações mensais, sempre com o objetivo de difundir ainda mais a cultura polonesa entre todas as descendências. ''A tradição polonesa cativa todos os povos'', conclui o presidente do Wisla.
Serviço:
- Mais informações sobre o Wisla podem ser obtidas na sede do grupo, na Rua Clotário Portugal, 68, em Curitiba.


