Comédias baratas e sonhos ruins
Já que os realizadores do lançamento nacional 'A família da noiva' (confira a programação na página 2) sempre afirmaram que não se trata de um remake de 'Adivinhe quem vem para jantar' - filme que nos anos 1960 teve indiscutível impacto social -, não vou aqui fazer comparações.
De qualquer maneira, é verdade que os dois filmes não poderiam ser mais diferentes. Há quarenta anos, o trabalho de Stanley Kramer abordava de frente uma problemática séria, mostrando as consequências de uma relação inter-racial na sociedade americana da época. Esta aqui, assinada por Kevin Rodney Sullivan, utiliza a temática como fertilizante para a comédia. O ponto de partida é similar ao do ilustre predecessor (a diferença é que os papéis estão invertidos: a família é negra e o noivo é branco), mas Sullivan nada mais faz aqui do que reciclar gags que já se viu à exaustão, especialmente em 'Entrando Numa Fria' e 'O Pai da Noiva'.
Mesmo que o filme ofereça um ou outro momento mais divertido, isto nunca é obtido em cima do novo, mas de uma incessante restauração de clichês. O que sustenta o interesse do público é o confronto entre futuro genro e futuro sogro, interpretados por Ashton Kutcher e Bernie Mac. Os dois, ao que parece, se divertem muito mais que o espectador e evidentemente há no ar alguma coisa de improvisação que até refresca certas cenas, como aquela em que o noivo, por insistência do sogro, irrompe numa litania de piadas racistas.
Pena, no entanto, que o conjunto se revele tão desleixado, de humor barato mesmo. Quem curte os dois atores provavelmente vai achar satisfatório. Mas deve-se admitir, sem hesitação, que 'A família da noiva', ao contrário do filme que o inspirou, não terá um lugar na história do cinema.
E quem também está de retorno, cinco anos depois, é 'Miss Simpatia 2'. Novamente em cena o ex-patinho feio Gracie vivido por Sandra Bullock. A agente do FBI está uma vez mais às voltas com um caso intrincado. Não se pode esperar maior credibilidade num filme em que o personagem vivido por William 'Star trek' Shatner, de 74 anos, tem uma mãe de 66 vivida pela ótima veterana Eileen Brennan. O diretor Joe Pasquin é veterano da televisão, e às vezes é salvo pelo aptidão de Miss Bullock para a comédia física. Mas é um comediazinha muito sem apelo.
Durante o prólogo do 'O Pesadelo', co-produção EUA-Nova Zelandia também em estréia nacional a partir deste fim de semana, um garoto de oito anos é aterrorizado à noite pelo 'Boogeyman' (Bicho-Papão) do título (e do armário). Nestes momentos, o diretor Stephen Kay dá ao espectador a esperança de que a seguir virá coisa interessante. Os efeitos não são lá muito bons, mas convencem. Há a chamada atmosfera, um tanto de estilo no cenário. Nada muito assim para entusiasmo, mas também nada que desencoraje. A curiosidade está garantida, existe a angústia diante da aparição do tal papão.
Mas quando logo a agressão pura e simples ao público se impõe arbitrariamente, e para o resto do filme, o castelo de cartas se desmancha. 'O Pesadelo' é um claro exemplo da bancarrota do atual cinema fantástico hollywoodiano. O que é ainda pior é o desperdício de mais uma oportunidade para uma conversa ao mesmo tempo inteligente e aterrorizante, por que não, sobre como lidar com os temores infantis. Mas isso nem passa pela cabeça de que só persegue a idéia de uma nova franquia.
(C.E.L.J.)





