Comédia veloz e furiosa
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Uma festa. Curta e muito grossa, apesar de britânica em sua essência. Impossível ficar indiferente diante de apenas hora e dez minutos de filme - sim, porque entre outras qualidades, "A Festa" tem ainda a de ser uma obra invulgarmente curta, rodada em tempo real e em magnífico preto e branco pelos olhos do fotógrafo russo Alexei Rodionov. Quem assina esta pérola que está a partir desta quinta-feira (20) no Cine Com-Tour/UEL é a inglesa Sally Potter. É ela, diretora da ótima adaptação de "Orlando" (1992), quem traz agora esta feroz e abusada e muito negra comédia sobre (entre outras coisas) a elite inglesa progressista e bem-pensante.

Reunir um punhado de personagens em um único espaço físico e introduzir o conflito mediante revelações e confissões sempre foi premissa muito utilizada pelo cinema como ferramenta de dramaturgia, neste caso como herança direta do teatro. Aqui, a coisa funciona mais e melhor porque limitação espacial e duelos verbais são organicamente viscerais sob uma direção precisa que sabe ainda como orquestrar cortes e elipses exigidos pela linguagem cinematográfica. Em "A Festa", aquilo que era para ser a alegre celebração, por um pequeno número de pessoas, da conquista política de uma delas - a nomeação de Janet/Kristin Scott-Thomas como ministra da saúde - transforma-se em guerra civil entre sete amigos, num pandemônio de revelações chocantes, numa micro hecatombe que entrega segredos, revela hipocrisias e não deixa pedra sobre pedra nas relações íntimas, nos laços de amizade e afetos antigos e recentes.
Em exatos 71 minutos, sem arredar pé de uma mesma área física (a casa de Janet e do marido, interpretado por um semi-catatônico e esplêndido Timothy Spall, muitos quilos a menos) e evitando o bom-mocismo conformado do teatro filmado através de uma aproximação sempre cinematográfica à ação, a roteirista-diretora Sally Potter elege o caos como seu mensageiro implacável e entrega uma sátira impiedosa, uma metáfora tanto sobre as perplexidades e temores coletivos causados pelo futuro das democracias liberais como sobre os tempos confusos e o desatino vivido atualmente pela Inglaterra após a vitória do Brexit.
O longa-quase-media-metragem coloca em cena um grupo de personagens que funciona como amostragem da elite urbana progressista, de resto culta, bem pensante mas dolorosamente humana e tragicômica. O personagem de Scott-Thomas percorre tanto a euforia quanto a desolação, se esquecendo de sua militância em nome da conciliação e do diálogo quando empunha uma arma em nome de vingança pessoal. Patrícia Clarkson é a amiga antiga e fiel, uma língua sempre afiada a respingar sarcasmo; o ator alemão Bruno Ganz faz um hippie na terceira idade cozinhando banalidades new age; Cillian Murphy é o jovem banqueiro Tom que não consegue esconder o mal que o devora. E o casal de lésbicas, inseminado artificialmente e à espera de trigêmeos, acaba demonstrando as fissuras de uma relação aparentemente madura e equilibrada.
Sally Potter aplicou em todos os personagens o mesmo padrão de hipocrisia, extraindo deles um lado obscuro proveniente dos dilemas derivados da tensão entre aquilo que consideram correto (ou acham que é) e o que depois marca uma vida pública ou a hora da verdade, hora que afinal sempre chega. Eles representam uma geração de esquerdistas em depressão, um claro reflexo da crise atual sofrida na Inglaterra (e em grande parte da Europa) pela democracia social. Há na trama, evidentemente, o conflito entre o público e o privado. E o que parece ser uma comédia em torno de conversas entre intelectuais progressistas é de fato uma exposição dos possíveis vazios de uma sociedade que perdeu a fé em si mesma e no futuro.


