Não sei exatamente por que, mas a impressão do primeiro dia na Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica de Veneza é sempre de desarrumação, coisas ainda por fazer, como se um atraso generalizado tivesse deixado tudo pela metade, fiação e vigas à mostra, urgências mal-acabadas, humores em suspenso, sala de imprensa mais congestionada por rigorosa falta de espaço. Como se a faxineira estivesse doente, e Berlusconi assumido a faxina.
Bem ao contrário de Cannes, onde o profissionalismo é palpável em cada detalhe. É provável que esta impressão de caos desapareça daqui a poucos anos - 2011, anuncia-se, espera-se -, quando o novo Palazzo Del Cinema estiver pronto. Por ora vão convivendo irritação e paciência, certa ordem e desconforto, improvisos e estoicismo.
Mas ''il spetacollo deve continuare''. Sob um sol abrasador e sem qualquer concessão - como uma brisinha qualquer soprando do Adriático -, Veneza abriu ontem as cortinas de seu festival de cinema numero 65. Na tela, programa duplo, um curta e um longa-metragem. À saída, nenhuma grande comoção, mas também nada de decepção. Satisfatórias, ambas as entregas, e com cara mesmo de hors-concours, convidados especiais bem do tamanho das expectativas.
Como aperitivo, o quase centenário Manoel de Oliveira (100 anos em dezembro) mostrou em apenas sete irônicos minutos como anda uma enorme confusão este nosso planeta em que as pessoas acham que falam umas com as outras, mas... Filmado em São Paulo, com roteiro escrito pelo próprio Oliveira a partir de uma idéia do apresentador Serginho Groissman, ''Do Visível ao Invisível'' registra o súbito reencontro de dois amigos em plena efervescência sonora da Avenida Paulista, um brasileiro (o diretor da Mostra Internacional de São Paulo, Leon Cakoff) e um português (Ricardo Trêpa). Tentam conversar, mas os celulares de ambos não param de tocar. Até que afinal, frente à frente, olhos nos olhos, conseguem se comunicar, mas por meio...dos celulares.
Na coletiva, definindo-se com ar feliz como ''um diretor no limiar da segunda juventude, e entre estes novos o menos apressado'', Oliveira disse que ''este pequeno filme ironiza a artificialidade dos consumos exacerbados e das sociedades, hoje tão em voga com os velozes e extraordinários avanços técnicos, mas que vão roubando a nossa privacidade e nossa tranquilidade em nome do que se chama progresso''.
A fórmula do mais recente filme dos irmãos Joel e Ethan Coen parece que não bate, quando se conhece antes pela sinopse. Mas transformada em imagens, não só é funcional como também muito esperta e inteligente. Além de engraçada e algumas vezes hilariante à sua maneira muito peculiar. Alguns dos mais bem-sucedidos elementos que constituem o DNA da comédia cinematográfica estão presentes em ''Burn After Reading'' - Queime Após a Leitura, ou seja lá que título a distribuidora dará ao filme no Brasil, onde deverá estrear provavelmente dia 26 de setembro.
Escrito paralelamente ao roteiro do premiado ''Onde os Velhos Não Têm Vez'', o filme é uma comédia negra misto de screwball (aquela vertente meio nonsense, muito dialogada, meio trapalhona), sátira ao modismo da cultura do corpo, farsa sexual. No argumento, que usa e abusa de reviravoltas que sempre imprimem novo ritmo à narrativa - talvez seja um único ritmo que se acelera em crescendo -, dois funcionários de uma academia de ginástica encontram um disquete que pode conter material altamente explosivo, certas memórias que um vingativo analista da CIA (John Malkovich) planeja publicar quando é colocado em disponibilidade por conta do alcoolismo.
Durante a coletiva, os Coen disseram que escreveram o filme pensando em direcionar alguns papéis principais, de gente em torno dos 40 anos, a determinados atores que conhecem bem, Clooney, Frances McDormand e Richard Jenkins, além de Brad Pitt, com quem há tempos queriam trabalhar. Para eles, ''Burn After Reading'' encerra ''a trilogia do idiota'', dedicada a personagens interpretados por George Clooney em ''E Aí Meu Irmão, Cadê Você?'' e ''Crueldade Intolerável''. Mas não apenas o agente federal de Clooney é idiota, mas também o são o treinador de academia fitness vivido por Brad Pitt e sua companheira interpretada por Frances McDormand.
E o gênero idiota se espalhou na sala das entrevistas coletivas e tomou conta de alguns, como a ridícula garota espanhola, com certeza repórter de um desses programas popularescos de auditório. Bem que ela tentou se aproximar da mesa com seu cameraman para com certeza criar uma saia justa, mas foi prontamente rechaçada pelo próprio George Clooney, que de idiota não tem nada.
Outro que interferiu na linha ''engraçadinha'', sem nada a ver com o filme, foi um brasileiro, Rafael de tal, identificado por jornalistas de São Paulo como alguém do programa CQC, ou Custe o que Custar, ou alguma coisa parecida. Apesar de vaiados por quem está ali para trabalhar seriamente, incidentes como estes, e outras inconveniências (''como vão os gêmeos, Brad?''), correm soltos como resultado de credenciamento indiscriminado e indevido, e terminam por transformar entrevistas que poderiam ser preciosas em números de circo. Do tipo mambembe.

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