Comédia italiana discute a arte da representação Beth Néspoli
São Paulo, 18 (AE) - Afinal, qual é a importância de um ator na sociedade? Se ele é importante, porque não recebe o apoio equivalente? A função do ator é tema tratado com o humor e o lirismo que caracterizam as comédias do italiano Eduardo de Filippo em "A Arte da Comédia", que estréia amanhã na Sala B do Teatro Alfa, sob direção de Márcio Aurélio, com a Cia. das Razões Inversas. No elenco integrado por oito atores estão a premiada atriz Débora Duboc, Walter Breda, Marcelo Lazzaratto e Newton Moreno.
"Trata-se de uma peça poética e bem-humorada sobre a arte da representação", afirma Márcio Aurélio. No prólogo, o ator Oreste Campese (Breda), dono do teatro O Barracão, numa cidade do interior da Itália, prepara-se para encontrar o prefeito (Lazaratto). Seu teatro pegou fogo e ele pede a ajuda do prefeito recém-eleito.
"Ele recebe o ator com aquele discurso tradicional: também fui ator quando jovem e acho maravilhosa a liberdade de vocês, etc." O prefeito oferece algumas facilidades, mas o ator as recusa. Na verdade, ele quer que o prefeito estimule a atividade teatral de forma mais ampla, para que ele possa reconstruir seu teatro. Os dois acabam brigando, porém o secretário da prefeitura (Marcelo Andrade) entrega ao ator, por engano, a agenda do prefeito.
A partir daí, o autor trabalha com um artifício. O dono da companhia aposta com o prefeito que ele não saberia distinguir o real da representação, caso ele mandasse um ator ou atriz no lugar do padre, da professora ou do médico, algumas das personalidades com visitas "agendadas" naquele dia.
"O segundo ato é todo construído sobre esse jogo duplo." O prefeito quase enlouquece com seus visitantes, sem saber exatamente se está tratando com a professora (Débora), o médico (Paulo Marcello), o padre (Fernando Neves) ou os atores da trupe. A reconstrução da Itália no pós-guerra está no cerne da discussão. "O autor critica a lógica mercantilista instaurada nesse período."
Porém, "A Arte da Comédia" está longe de ser uma entediante peça de tese, a julgar pelas duas comédias do autor já encenadas no Brasil, ambas no Rio: Filomena Marturano e Sábado, Domingo e Segunda, cujos personagens, saídos de típicas famílias italianas, arrancaram gargalhadas do público em temporadas de grande sucesso. Por isso mesmo, pode parecer supreendente que o diretor Márcio Aurélio tenha escolhido o autor para mais uma encenação.
Desde sua criação, em 1990, o grupo optou por montagens de textos considerados bem mais áridos, como "A Bilha Quebrada", de Heinrich Von Leist (1993), Torquato Tasso, de Goethe (1995), e Maligno Baal, o Associal, de Bertolt Brecht (1998), entre outros. Apaixonado pelo autor, Márcio Aurélio vê na montagem a continuidade da pesquisa que vem desenvolvendo na companhia. "Em suas peças, o núcleo familiar - um universo que como filho de italianos conheço bem - serve como metáfora da sociedade." Serviço: "A Arte da Comédia". De Eduardo De Filippo. Adaptação e direção de Marcio Aurelio. Duração: 2h10. De quinta a sábado, às 21 h; domingo, às 18 h. De R$ 20,00 a R$ 30,00. Teatro Alfa - Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 12/9. Patrocínio: Banco Alfa, Hotel Transamérica São Paulo





