Como o exibidor acaba não dando conta da cesta de Natal disponibilizada pelas distribuidoras, sempre alguma coisa sobra para aproveitamento em janeiro. Algo assim como uma ceia requentada. É o caso desta comédia de grande sucesso comercial nos Estados Unidos, 'Surpresas do Amor'. Caso curiosíssimo de resultado paradoxal: em sua primeira metade o filme, em lançamento nacional, propõe um olhar cínico e impiedoso sobre as misérias, lugares comuns e contradições que recheiam o peru nos encontros familiares durante as festas de fim de ano. Mas de repente a narrativa dá um solavanco, uma ríspida reviravolta melodramática e paga tributo aos valores tradicionais de Natal chancelados pela família.
Em São Francisco, o casal Kate (Reese Witherspoon) e Brad (Vince Vaugh) quer passar o Natal em lugar paradisíaco. As ilhas Fiji, por exemplo. Juntos há três anos, a idéia é ficar bem longe do burburinho familiar, curtindo aquilo que gostam de fazer a dois: viajar, dançar, ter ardentes aventuras sexuais. Mas os planos são alterados quando um nevoeiro impede o tráfego aéreo - e a tevê escolhe logo a dupla para entrevistar sobre o inconveniente e a troca de programa.
Eles se conformam em passar o Natal visitando as quatro famílias que têm (cada qual disputando o título de mais caótica e disfuncional), produtos de divórcios e novos casamentos: a do pai dele (Robert Duvall), da mãe dela (Mary Steenburgen), da mãe dele (Sissy Spacek) e do pai dela (Jon Voight). Daí o título original, ''Four Christmases'', obviamente muito mais adequado do que o apelativo batismo brasileiro. O filme parte então para a paródia das ''obrigatórias'' reuniões familiares natalinas, o que leva ao confronto entre personalidades muito díspares.
Nesta primeira parte, as vinhetas sobre a interação entre parentes e o lado pitoresco e/ou caricatural do painel de personagens servem para criar tensões e estabelecer as regras de humor negro e absurdo, através não apenas dos diálogos, mas também do humor físico, do slapstick destrutivo doméstico. Questionáveis, neste segmento inicial, as passagens em que os personagens passam por todo tipo de humilhações e crueldades.
Nada contra rir dessas celebrações, ou satirizar o lado obscuro delas, ponto de reencontro anual de parentes próximos e distantes - afinal, reuniões festivas com toques de bizarria já forneceram muito material humorístico de ótima qualidade. O que surpreende é que esta comédia, a princípio mal comportada, iconoclasta e revulsiva se converta, quase como num susto, em plenamente convencional, calma e tranquilizadora.
O tratamento de choque acaba comprometendo uma e outra abordagem, deixando o espectador meio perplexo.

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