Comédia criminal com Clooney e Pitt abre Veneza
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha2 
Ontem aconteceu aqui no Lido de Veneza uma pré-abertura em honra ao homenageado deste ano com o Leão de Ouro pela Carreira, o cineasta italiano Ermano Olmi, inclusive com a exibição de seu filme vencedor no festival de 1988, ''A Lenda do Santo Beberrão''. Mas é hoje que tudo começa de fato, às sete da noite, uma outra olimpíada. A atriz russa de cinema e teatro Ksenia Rappoport (vista ano passado em Londrina no filme ''A Desconhecida'', de Giuseppe Tornatore) vai iniciar a cerimônia de abertura da mostra.
Previstos para logo em seguida os habituais discursos de Paolo Baratta, presidente da Biennale di Venezia, promotora do evento, e do diretor do festival, Marco Muller. Ambos estão inaugurando também o segundo quadriênio à frente da organização. A dupla dinamizou os rumos do festival, fez com bem mais acertos que equívocos a ligação entre arte e glamour, e por isso foi reconfirmada, apesar da proverbial gangorra que a sempre confusa política italiana mantém em relação a cargos de confiança.
Mas antes que Joel e Ethan Coen (e mais George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich, Frances McDormand e Tilda Swinton) subam ao palco para apresentar em première mundial seu mais recente trabalho, ''Burn After Reading'', depois do premiado ''Onde os Fracos Não Têm Vez'', será exibido o curta-metragem de sete minutos, ''Do Visível ao Invisível'', realizado pelo quase centenário cineasta português Manoel de Oliveira sobre o encontro meio absurdo entre dois amigos em São Paulo. Um deles é interpretado por Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de São Paulo (que produz o filme) e o outro pelo neto do diretor, Ricardo Trêpa.
A programação oficial do Festival prevê, de hoje ao dia 6 de setembro, a projeção de 60 títulos de longa, média e curta-metragem, sendo 21 em competição pelo Leão de Ouro, 23 na mostra paralela Orizzonti e 16 hors-concours. Deste total, 49 serão vistos em pré-estréia mundial. Neste ano houve um recorde de inscritos: 3.689 de 72 países, sendo 2.429 longas-metragens. A edição 2008 é dedicada à memória do cineasta egípcio Youssef Chahine, falecido há exatos trinta dias.
Uma vez mais Marco Muller trabalhou com a idéia do balanceamento: uma seleção que vê o cinema ao mesmo tempo como um modo original e poderoso de pensar em imagens, e também como um entretenimento somente possível por meio de uma indústria que o materialize. O diretor da mostra vem solidificando uma estreita relação com a produção internacional, devolvendo a Veneza um crédito que andou um tanto abalado no início da década.
E Muller também aposta no elemento surpresa. Como faz todos os anos, pelo menos dois títulos de impacto aparecem de repente no programa. O primeiro foi anunciado na última sexta-feira: ''Khastegi'' (Tédio), sobre o tema do transsexualismo que afeta seis personagens na Teerã de nossos dias. Polêmica já garantida.
A presença brasileira, mesmo fora da competição principal, pode ser considerada de bom tamanho. Julio Bressane, sempre cortejado por Muller, volta ao segmento mais experimental Orizzonti - que ele frequenta filme sim, outro também - com o título ''A Erva do Rato'', livremente adaptado de dois contos de Machado de Assis. O terror ''A Encarnação do Demônio'', dirigido e interpretado por Zé do Caixão Mojica Marins, está fora de concurso nas Sessões de Meia-Noite. E mais: ''Plastic City'', de Yu Lik-wai. O italiano ''BirdWatchers'', filmado no Mato Grosso do Sul, tem importante participação brasileira.
A mídia italiana saudou a seleção deste ano como a que marca o renascimento do cinema italiano. Há uma maciça presença dos realizadores da península: são quatro filmes em competição, e outros 16 espalhados pelas outras seções. O que se espera é que, ao contrário de anos anteriores, a esquadra da casa desta vez não decepcione.
E o cinema dos EUA, como entra neste panorama? Bem numeroso, como sempre, mas com predominância dos independentes. Cinco filmes, de Jonathan Demme, Kathryn Bigelow, Amir Naderi, Darren Aronovsky e Guillermo Arriaga (o roterista de Alejandro IÀárritu). Completam a mostra competitiva longas da França (3), Alemanha (1), Japão (3), Rússia (1), Turquia (1), Argélia (1) e Etiópia (1).
* O jornalista está em Veneza a convite da organização do festival
Filmes em competição:
- The Wrestler - Darren Aronofsky - EUA
- The Burning Plain - Guillermo Arriaga - EUA
- Il papà di Giovanna - Pupi Avati - Itália
- BirdWatchers - Marco Bechis - Itália/Brasil
- L'Autre - Patrick Mario Bernard e Pierre Trividic - França
- Hurt Locker - Kathryn Bigelow - EUA
- Il Seme Della Discordia - Pappi Corsicato - Itália
- Rachel Getting Married - Jonathan Demme - EUA
- Teza - Haile Gerima - Etiópia/Alemanha/França
- Bumaznyj soldat (Paper Soldier) - Aleksey German Jr. - Rússia
- Sut - Semih Kaplanoglu - Turquia/França/Alemanha
- Akires to kame (Achilles and the Tortoise) - Takeshi Kitano - Japão
- Gake no ue no Ponyo (Ponyo on Cliff by the Sea) - Hayao Miyazaki - Japão
- Vegas: Based on a True Story - Amir Naderi - EUA
- The Sky Crawlers - Mamoru Oshii - Japão
- Un Giorno Perfetto - Ferzan zpetek - Itália
- Jerichow - Christian Petzold - Alemanha
- Inju, la Bête dans l'ombre - Barbet Schroeder - França
- Nuit de chien - Werner Schroeter - França/Alemanha/Portugal
- Gabbla (Inland) - Tariq Teguia - Argélia/França
- Dangkou (Plastic City) - Yu Lik-wai - Brasil/China/Hong Kong/Japão


