São Paulo, 10 (AE) - Primeiro foi uma peça teatral de sucesso, depois virou filme. Aliás, um dos mais encantadores da nova fase do cinema brasileiro. Domingos Oliveira, naquela que é a sua praia natural, coloca-se no centro da ação dessa (agri)doce comédia chamada "Amores". Cheia de idas e vindas, acertos e desacertos, ameaças de drama que não passam de preparação para um descarado happy end. É também imagem de um Rio idealizado (embora sem cenas de cartão-postal), livre nos costumes, alegre, inteligente, bon vivant. Enfim, tudo isso que às vezes a realidade teima em desmentir. Mas, enfim, a arte foi feita (também) para corrigir a brutalidade do real.
Domingos é Vieira, roteirista da Globo em via de perder o emprego. Sua melhor amiga é Telma (Pricilla Rozembaum), casada com outro amigo, Pedro. Esse casal tenta, sem sucesso, ter um filho tardio. A filha de Vieira, vivida pela própria filha de Domingos, Maria Mariana, tenta encontrar-se na existência e navega de namorado em namorado. A irmã de Telma, Luiza (Clarice Niskier), show woman em um cabaré, apaixona-se perdidamente por um pintor bissexual, que depois se descobre soropositivo. Enfim, dramas amorosos da classe média alta e intelectualizada. Ninguém tão contestador que não possa pertencer àquilo que nos anos 60 se chamava de "o sistema"; ninguém tão careta que não perceba o que esse mesmo sistema tem de ridículo quando levado a sério.
É nesse "não estar de todo", como na expressão de Cortázar, que Domingos Oliveira cava o seu lugar. Ele não é exatamente um revolucionário de esquerda. Nunca foi. Muito menos se alinha ao mundo acomodado dos que venceram. Faz seu caminho próprio. Indefectível copo de uísque na mão, é um especialista dos paradoxos amorosos. Sabe que, hoje em dia, é muito difícil a família patriarcal dar certo. Ela só consegue firmar-se a custos pesados de repressão e isso não tem mais sentido. Por outro lado
não pretende, de modo algum, abdicar de alguns desses valores familiares, como o ciúme paterno, a alegria (e a agonia) de se criar um filho, a doçura da chegada dos netos. Vê esses acontecimentos como valores a serem preservados, para além da crise da família como instituição.
Parece ser dessa permanente contradição que o filme tira seu encanto. Seus personagens, a começar pelo do próprio Domingos, são protótipos de ambiguidade. Nenhum deles consegue se enganar durante muito tempo e achar que tem metas coerentes e definitivas para a vida. A vida é aquilo que se vai tecendo no momento, ao sabor de um encontro, de uma paixão, de um mal-entendido, de um gesto amigo. Amores é também uma ode à modernidade nas relações amorosas, um elogio à tolerância e à humanidade, o que não é pouca coisa nos dias de hoje. Doce anacronismo de um Brasil cordial, em via de extinção.
Em termos de cinema, Domingos adota técnica parecida com a de Woody Allen em filmes como "Maridos e Esposas", por exemplo. Câmera solta, saltando de um close a um plano geral, parece acompanhar a instabilidade dos personagens em cena. Muita gente não gosta. Acha que parece desleixo. No entanto, a técnica não deve ser considerada como um fim em si. Funciona quando se adapta à concepção geral da obra. No filme de Domingos, é mais que funcional - é indispensável. Como também o são os diálogos, um tanto rebuscados pela origem teatral, mas que soam espontâneos na boca dos atores. Como se esses tivessem ensaiado suas falas e suas vidas. Mas depois notassem que, apesar do ensaio exaustivo, o que vale mesmo é o espaço do improviso.
É notável que um filme tão inspirado e carinhoso como "Amores" não tenha feito melhor carreira no cinema. Tomara tenha melhor sorte em vídeo. Serviço - "Amores". Brasil, 1998. Dir. de Domingos Oliveira e Pricilla Rozembaum, com Domingos Oliveira, Pricilla Rozembaum, Clarice Niskier, Maria Mariana. Distribuição: Versátil Vídeo

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