São Paulo, 01 (AE) - Uma mulher apressada dá esmola a um mendigo qualquer na rua de uma grande cidade. O gesto corriqueiro e descuidado transforma-se numa situação insólita quando a mulher reconhece no "morador de rua" um ex-colega de escola, filho de pais ricos. Assim tem início a peça "A Boa", de Aimar Labaki, que estréia amanhã (02) no Teatro N.Ex.T com Ana Kutner e Milhem Cortaz no elenco sob direção de Ivan Feijó.
Ana interpreta Verônica, a bondosa do título, que resolve levar para casa o mendigo Ricardo (Cortaz) com a intenção de novamente integrá-lo à sociedade. Impossível não simpatizar num primeiro momento com o mendigo cujo discurso sólido e consciente acaba por desnudar a pobreza afetiva e emocional da amiga que mendiga afeto via Internet. O convívio entre eles vai provocar uma reviravolta na vida de ambos.
Labaki escreveu o texto especialmente para a dupla de atores Ana e Cortaz. "Eles queriam discutir no palco o tema da generosidade". A caridade deixou de ser apenas um tema para ganhar estrutura dramática no conflito entre os personagens de "A Boa". "Antes de mais nada, louvo a atitude corajosa dos atores, que podiam ter feito várias outras opções mais facilmente identificáveis como um esforço sério como a montagem de um autor conhecido ou uma experiência formal com um texto de Beckett, por exemplo".
A generosidade ou a solidariedade que amenizam a miséria material podem extirpá-la? Qual é a real possibilidade de interferência sobre uma realidade tão complexa? "A revolução tem de ser cultural", diz Labaki, que contrapõe em seu texto a miséria material e a espiritual. "Não quero falar para as massas, mas para as elites mesmo: o investimento em bens e valores simbólicos é fundamental".
"Fico irritado quando percebo o presidente do País perdendo a noção da importância simbólica do cargo; estamos envolvidos em questões rasteiras de sobrevivência e perdendo a capacidade de transcender, deixando de perceber que é impossível lidar com a miséria no nível rasteiro". Para o diretor Ivan Feijó, a peça conta a história de um encontro entre conhecidos sem grande intimidade e, a partir daí, vai mostrar que uma sociedade sem valores acaba por estimular comportamentos radicais. Segundo ele, uma juventude literalmente perdida, bombardeada por informações sem poder de discernimento sobre o que é certo ou errado, é mais facilmente seduzida por movimentos como o neofascimo ou outros fanatismos. "Verônica acredita que o sistema pode salvar Ricardo, enquanto ele foi para a rua justamente por não acreditar nos valores impostos pela família"
diz. "Ambos estão isolados e não conseguem trocar afeto: a peça confronta ideologias".
Mas essas ideologias não viram discursos explícitos no palco. "Toda a minha pesquisa no palco é no sentido de contar uma história, de forma simples, com poucos elementos cênicos". Antes de estrear em São Paulo, "A Boa" fez um circuito de festivais e o espetáculo conseguiu grande empatia com o público jovem. Um dos motivos, segundo o diretor, está na trilha sonora criada pelo DJ Gil Jorge, proprietário do Van Helsen.
"Ele é um grande poeta e um DJ conhecido na noite paulistana", diz Feijó. "A trilha de "A Boa" foi sua primeira experiência no teatro e estou feliz por tê-lo convidado". Serviço - "A Boa". Comédia de Aimar Labaki. Direção de Ivan Feijó. Duração: 1h05. De terça a quinta, às 21h30. R$ 15,00. N.Ex.T. Rua Rego Freitas, 454, tel. 259-2485. Até novembro.

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