Fora de competição, a mais recente comédia escrita, dirigida e interpretada por Woody Allen, ‘‘Hollywood Ending’’, abre hoje oficialmente a 55ªedição do Festival de Cannes. O certame reúne todos os anos na badalada Cote d’Azur, durante 12 dias, as novíssimas e variadas tendências do cinema mundial. A cerimônia de abertura acontece em forma de celebração. O veterano presidente da mostra, Gilles Jacob, logo de saída vai apresentar um curta-metragem, um filme-montagem de 26 minutos, com material de arquivo editado por ele, uma espécie de tributo para dar vida ao passado ilustre - uma síntese da história do festival, um documento, segundo se anuncia, repleto de grandes atores, diretores míticos, drama, comédia e sonhos, tudo emoldurado ou pela magia das salas escuras ou pela ensolarada Croisette, a lendária avenida beira-mar de Cannes.
E Woody Allen, quem diria, vai driblar a timidez e aparecer em carne e osso para apresentar seu filme na noite inaugural. Até prometeu conversar depois com a imprensa, logo ele, que foge dos jornalistas como da peste. Amanhã, será inaugurado um longo passeio musical e luminoso: ao longo da Croisette estão colocadas colunas de luz equipadas também com sistema de som que vão reproduzir ininterruptamente música de trilhas de filmes exibidos ao longo dos 55 anos de Cannes. Morricone, Francis Lasi, Michael Nyman, Antoine Duhamel. E a ‘‘Sala de Areia’’, funcionando também a partir do fim de semana, vai conferir o detalhe que faltava para que o charme do cenário fosse ainda mais completo. Uma tela gigante sobre a água, diante da praia, mais do que resolver o problema do contingente dos sem-ingresso, vai ser o suporte de uma das programações especiais previstas para este ano: uma homenagem a Jacques Tati, morto há vinte anos e antigo frequentador do Festival, onde apresentou ‘‘Meu Tio’’, ‘‘Carrossel da Esperança’’ e ‘‘As Férias do Sr. Hulot’’.
Segundo o diretor artístico Tierry Fremaux, os longas em competição (22), os filmes hors concours (7), as apresentações especiais (7), a mostra paralela Un Certain Regard (21), os curtas em competição (11) e os 16 filmes da seção Cinéfondation (realizados por escolas de cinema) fazem parte de uma ‘‘seleção dinâmica’’, com bom número de jovens estreantes. Outra característica é o retorno marcante do cinema inglês, ausente da competição ano passado. Michael Winterbottom, Ken Loach e Mike Leigh, sempre com livre trânsito em Cannes, traçam retratos da Inglaterra contemporânea, e um quarto está inscrito em Certain Regard. A delegação doméstica marca presença com seu habitual quarteto, em que se destacam os jovens Olivier Assayas e Robert Guédiguian. Entre os americanos, o nome conhecido é o de Paul Thomas Anderson, apresentado sua comédia depois de ‘‘Magnólia’’. O cult iraniano Abbas Kiarostami comparece com um filme captado em vídeo digital, enquanto o nonagenário português Manoel de Oliveira faz mais uma de suas - com certeza também lúcida e inspirada - incursões filosóficas. A Itália já garantiu de antemão a palma da polêmica com o bate-boca entre o sempre engajado diretor Marco Bellocchio (outro assíduo do festival) e o Vaticano, que considerou ‘‘L’Ora di Religione/ Il Sorriso di Mia Madre’’ um filme herético e profano. E a Rússia vem com o estetizante e provocador Alexandre Sokurov, que obteve em ‘‘Russian Ark’’ um feito inédito na história do cinema: com uma câmera de vídeo digital de alta definição, ele realizou um filme de 90 minutos sem um único corte, num único plano. Com certeza Sokurov deve ser um dos mais solicitados deste festival.
A ligação do festival com a atualidade geopolítica mundial fica evidente pela escalação de Israel e Palestina para a competição oficial, respectivamente com ‘‘Kedma’’, de Amos Gitai (outro queridinho de Cannes), e ‘‘Intervention Divine’’, de Elia Suleiman. Segundo consta, duas contribuições para a paz. Mas o filme mais explicitamente político da competição é o documentário ‘‘Bowling for Columbine’’, de Michael Moore. A partir de um tristemente famoso episódio - a execução de diversos estudantes por dois colegas -, o filme investiga o comércio de armas de fogo no mundo. E quem está de volta a Cannes depois de 26 anos (‘‘O Inquilino’’) é Roman Polanski, que está na mostra competitiva com uma história semi-autobiográfica, ‘‘The Pianist’’, já comprado para distribuição brasileira pelo consórcio Art-Europa-Marco Aurélio Marcondes, que também garantiu os direitos sobre o filme de Woody Allen. Entre as ausências, a mais lamentada é de ‘‘Gangs de Nova York’’, o último Scorsese. Segundo boatos, a Miramax não quis correr o risco de críticas negativas que poderiam atrapalhar o lançamento do filme. De qualquer maneira, Martin Scorsese, que também é presidente do júri de curtas e da Cinéfondation, está trazendo 20 minutos do filme e alguns atores, entre eles Leonardo di Caprio.
Quando se esperava o brasileiro ‘‘Cidade de Deus’’ na briga pela Palma, o filme de Fernando Meirelles acabou hors concours. O Brasil conta ainda com a dupla presença de Walter Salles: no júri oficial de longas e como diretor de ‘‘Caju e Castanha contra o Encouraçado Titanic’’, uma crítica bem humorada, de apenas 4 minutos, sobre a hegemonia norte-americana no mercado brasileiro de filmes. Ainda brasileiro é ‘‘Madame Sat㒒, longa de estréia de Karim Ainouz encaixado em Certain Regard. E em Cinéfondation, representando a Universidade Federal Fluminense, Eduardo Valente defende o curta ‘‘Um Sol Alaranjado’’.
Além de Walter Salles, o júri oficial é composto pelos diretores David Lynch (presidente), Billie August, Claude Miller, Raoul Ruiz e Regis Wargnier, e as atrizes Sharon Stone, Christine Hakim e Michele Yeoh.

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