Começa a festa na serra gaúcha
Quase 50 filmes, entre curtas e longas-metragens, desfilam no 26º Festival de Gramado
DivulgaçãoCena de Plaza de Almas,
do argentino Fernando Diaz,
primeiro longa da noite inauguralCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
O teste de resistência - ou o calcanhar de aquiles da mostra: as longas jornadas competitivas, sempre noite adentro - já começa hoje mesmo, logo mais na abertura. A partir das sete da noite, num início sempre morno, como acontece todos os anos, o Palácio dos Festivais deverá receber cerca de dois terços apenas de sua capacidade. Basicamente formada por jornalistas, a platéia vai começar a maratona assistindo a um indefectível média-metragem, inédito em certa medida: Gramado - 25 Anos em Movimento, simpática auto-elegia que contempla o primeiro quarto de século de bastidores e front do festival, este ano acrescida de imagens registradas em 97, e portanto...inéditas. Em todo caso, é sempre bom saber que o festival continua vivo e gozando de boa saúde, e com ele muitos que, com sempre renovadas fé e esperança no cinema brasileiro, anualmente sobem a serra para uma espécie de culto em torno da mesma crença.
O primeiro longa da noite inaugural vai ser o argentino Plaza de Almas, de Fernando Diaz. Em sua companhia, dois curtas paulistas (há apenas curtas brasileiros em competição), Espantalho e Sete, Sete e Pouco. E fechando a extensa programação, o primeiro longa brasileiro (com participação paraguaia) em busca dos Kikitos: O Toque do Oboé, de Claudio MacDowell. Este ano a organização não deixou a produção nacional à parte: a mostra competitiva é uma só, com latinos e brasileiros concorrendo juntos.
DivulgaçãoTropicanita, de Daniel Diaz Torres, concorre por CubaAlém do argentino e do brasileiro, hoje à noite, outros 12 longas de nove países estão no páreo. Do Chile vem Historias de Futbol, de Andrés Wood. Otario, de Diego Arsuaga, é o representante do Uruguai. De Noche Vienes Esmeralda, de Jaime Hermosillo, é o selecionado do México. O espanhol Perdita Durango, uma extravagância de Alex de la Iglesia, já foi exibido no Brasil (e na América Latina) pelo canal por assinatura TNT . Dois cubanos: Tropicanita, de Daniel Diaz Torres, e Zafiros - Locura Azul, co-produção com os Estados Unidos. O venezuelano Carlos Oteyza traz La Voz del Corazon. Mais um argentino, o badalado Pizza, Birra, Faso, da dupla Bruno Stagnaro e Israel Caetano. Outros três brasileiros: Um Sonho no Caroço do Abacate, de Lucas Amberg; A Reunião dos Demônios, de A.S. Cecilio Neto e Amores, de Domingos de Oliveira e Priscilla Rozenbaum. Destaque certo entre os selecionados é o belíssimo O Rio de Ouro, de Portugal (com pequena participação brasileira na produção), dirigido por Paulo Rocha e um dos trabalhos mais recentes a figurar na relação de concorrentes deste ano. Exibido pela primeira vez em maio no Festival de Cannes, em mostra paralela, este melodrama sobre amor, paixão, traição e sangue traz, entre virtudes a escolher, uma soberba interpretação de Lima Duarte. Inclusive com perfil de premiação.
Selecionados entre mais de setenta títulos inéditos, os 15 curtas metragens em 35 mm e os 7 curtas e médias em 16 mm, em competição, prometem um painel diversificado. E novo, já que Gramado é sempre o ponto de partida para uma ampla circulação festivaleira posterior. São Paulo e Rio de Janeiro são os Estados com as maiores representações, respectivamente com seis e cinco filmes, confirmando a hegemonia de ambos, pelo menos em quantidade. Há um paranaense, Imagens Distorcidas, do curitibano Calixto Hakim, e representantes do Ceará, Pernambuco, Distrito Federal, Bahia e Santa Catarina. Os seis curtas gaúchos não concorrem aos Kikitos nacionais, mas à premiação doméstica oferecida tradicionalmente pela Assembléia Legislativa do Estado.
DivulgaçãoAmores, de Domingos de Oliveira e Priscilla
Rozenbaum, é um dos brasileiros no páreoUma das novidades desta 26ª edição do festival é a mostra paralela PremiSres Gramado 98. Diariamente, às quatro e meia da tarde, vai ser preciso esticar o tempo para saborear alguns petiscos que desde já se anunciam refinados e irresistíveis. Todos inéditos comercialmente no Brasil. A mostra abre amanhã com o último Almodóvar, Carne Trêmula. Segunda é dia de avaliar a nova versão de Os Miseráveis, de Bille August. A co-produção argentino-espanhola Doble o Nada, de Jaime Chavarri, é o programa de terça. O americano O Ouro de Ulysses, de Victor Nunez e com a elogiada interpretação de Peter Fonda, passa na quarta. O brasileiro Bela Donna, de Fabio Barreto, pode ser visto quinta-feira. Sexta está reservada para o italiano Il Ciclone, de Leonardo Pieraccione. Finalmente no sábado da semana que vem a dose dupla, na sessão noturna de encerramento: o chinês The Soul of the Sea, de Wu Yi Gong, e o americano O Show da Vida, de Peter Weir. Além desses, a curadoria do festival, a cargo do crítico Hiron Goidanich, programou a exibição de títulos consagrados como Central do Brasil, de Walter Salles - o curta Socorro Nobre, dele e fonte inspiradora do longa premiado em Berlim, também será exibido. E um outro português deve arrancar aplausos: Mortinho por Chegar a Casa, de Carlos da Silva. Com legendas em português...
Este ano, a nona edição do Troféu Oscarito, criado pela Fundação Banco do Brasil, vai homenagear o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que está completando 70 anos. Diretor dos clássicos Rio 40 Graus, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, Nelson foi um dos mentores do movimento cinemanovista no Brasil. Antes dele, o Troféu Oscarito foi entregue a Grande Otelo, Walter Hugo Khouri, Anselmo Duarte, Alberto Ruschel, Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio e Cinemateca de São Paulo, Carlos Manga, Cinédia e José Lewgoy.
Quinta e sexta da próxima semana o Festival promove o 1º Encontro de Exibidores Gaúchos, com o objetivo de retomar espaços e servir de plataforma de lançamento comercial para os filmes exibidos em Gramado. E de terça a quinta realiza-se o Encontro Latino-Americano de Televisões, com previsão de negociações para a exibição de filmes participantes do Festival nas emissoras culturais latino-americanas.
Uma novidade lançada com sucesso ano passado e que vai se repetir este ano: as chamadas exibições comunitárias, desta vez programadas para distritos industriais ao redor de Gramado e diversos bairros de periferia. Filmes com O Amuleto de Ogum, Ana Terra, Como Era Gostoso o Meu Francês, O Menino Maluquinho 2 e O Quatrilho vão ser projetados diariamente, com a presença de realizadores e intérpretes.
Para quem achar que tempo é cinema, exclusivamente, a dica são as oficinas de cinema organizadas pela cineasta gaúcha Flavia Seligman, da PUC-RS. Os temas são Direção, com orientação de Lirio Ferreira, e Produção, com Beto Rodrigues. E, amanhã, em sessão única às duas e meia da tarde, acontece no Hotel Serrano a mostra competitiva de Super-8, que reúne 13 produções inscritas. Uma delas é Final Feliz, do londrinense Caio Cesaro. Os vencedores dessa bitola serão conhecidos na noite de quarta-feira.





