Começa a edição paulistana do Boa Mesa, o maior festival gatronômico do País
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quarta-feira, 12 de maio de 1999
Por Luiz Fernando Rila 
São Paulo, 13 (AE) - Numa cidade em que feiras de utilidades domésticas, carros ou produtos de informática reúnem multidões, parece haver espaço para todo tipo de evento e não chega a ser incompreensível o sucesso de um festival voltado para algo muito mais primordial: a comida e a bebida. Uma certa euforia justificável marca a quinta edição paulistana do Boa Mesa, a maior e mais divertida reunião gastronômica do País e, provavelmente, da América Latina. Já houve duas edições do Boa Mesa no Rio de Janeiro e uma em Brasília, mas é São Paulo o lugar em que, de fato, o evento, aberto hoje ao público, se faz acontecer.
O núcleo do Boa Mesa, realizado no Centro Têxtil Internacional, na Vila Leopoldina, é uma espécie de escola, na qual, até domingo, ocorrem degustações de primeira qualidade, aulas e workshops capitaneados por alguns dos maiores chefs em atividade no Brasil e por estrelas internacionais. Em torno desse núcleo, espalha-se a Expo Gourmet, com 120 estandes montados por empresas e entidades vinculadas a todo tipo de produto gastronômico, numa área de 2,5 mil metros quadrados que merece ser explorada sem pressa e com os sentidos em alerta.
A alma do Boa Mesa tem nome, sobrenome e uma trajetória peculiar. É Josimar Melo, crítico de 45 anos, autor de um confiável guia de restaurantes da cidade e idealizador único do evento, cuja organização conta com o trabalho decisivo dos promotores Fernando Souza e Renata Saldanha. Filho do jornalista Josimar Moreira de Melo, personagem cuja história guarda similaridades com a de Samuel Weiner, o comandante do Boa Mesa foi militante político e integrou o grupo de esquerda O Trabalho
antes de fazer de seu hobby, a gastronomia, uma ocupação profissional. Ativista - Num exercício mental em que a imaginação supera o rigor, é possível enxergar no trabalho de Josimar Melo reflexos de seu passado de ativista. "Meu interesse, de alguma forma, sempre foi o de popularizar a cultura gastronômica, livrando-a da imagem excessivamente vinculada à aristocracia", diz. "Desde que tenha um pouco de sensibilidade, qualquer um pode ser gourmet, mesmo com pouco dinheiro".
Uma análise dos números do Boa Mesa leva à conclusão que
em determinada medida, o objetivo do crítico foi atingido. Da primeira edição até a atual, o festival apresentou um crescimento vigoroso, vitaminado pela abertura do País à importação de produtos aos quais, antes, só tinha acesso quem podia viajar para o exterior. Em cinco anos, o afluxo de visitantes ao evento subiu de 3 mil para 40 mil e o time de expositores aumentou de 30 para 120 integrantes.
O sucesso crescente do festival permitiu aos organizadores escalar para as aulas e workshops deste ano um grupo fabuloso. Dos chefs que trabalham no Brasil, é possível tomar a liberdade, sempre arriscada, de destacar dois que atuam em São Paulo: Emmanuel Bassoleil (do restaurante Roanne) e Luciano Boseggia (do Fasano). É aceitável lamentar a ausência de Laurent Suaudeau (do Laurent). Do Rio de Janeiro, vem Claude Troisgros, cujo sobrenome traz a marca de uma das mais competentes famílias da gastronomia francesa.
Entre os convocados do exterior, brilha Alain Passard, do restaurante parisiense LArpge, três estrelas no Guide Michelin. Aporta também, com fama de gênio suave, Hubert Keller, do Fleur de Lys, de São Francisco. A brasileira Mari Hirata, radicada em Paris, dará lições de sobremesa. Foie gras - Entre as degustações, há duas que merecem atenção especial, ambas promovidas pela Muanis Importadora. Numa delas, Nathalie Amiel, diretora da indústria francesa Les Ducs de Gascogne, promoverá a comparação entre o foie gras (fígado) de pato e o de ganso. Em outra, Jérôme Blanvillain, da marca francesa A LOlivier, oferecerá dez tipos de azeite, acompanhados de pedaços de pão. São experiências recomendáveis para quem acredita que a sabedoria está na compreensão das sutilezas. As degustações de vinho são tão atraentes que foi necessário reservar-lhes texto à parte.
Empenhados em reforçar as atrações paralelas ao núcleo do Boa Mesa, os organizadores apostaram na montagem de uma praça de alimentação que contrariasse o clichê estabelecido pelos shopping centers. Dez casas de fora de São Paulo, todas filiadas à prestigiada Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, estarão servindo suas especialidades, num ambiente que, frisam os textos de divulgação, contará com toalhas de pano, copos de vidro, pratos de louça e talheres de metal. Do grupo de restaurantes selecionados, o boníssimo Locanda della Mimosa, de Petropólis, será representado pelo bacalhau amanteigado à veneziana, e o Lá em Casa, de Belém, pelo pato do imperador.
Um convênio com o grupo de cartões de crédito American Express permitirá que o visitante, durante os dias do festival, desfrute de um menu especial e de descontos de até 20% em oito restaurantes da cidade, entre eles o Bice, o Don Curro e o Roppongi. A promoção é sintoma do objetivo mais louvável e delirante do Boa Mesa: o de, para além das salas de aula e dos stands, fazer, ao menos por uns dias, a gastronomia ocupar São Paulo. Serviço - Boa Mesa / Expo Gourmet 99 - Centro Têxtil Internacional, Avenida Engenheiro Roberto Zuccolo, 555, até domingo, das 12 horas às 22h30. Ingressos a R$ 20. Aulas ou degustações a R$ 90. Pacote de três aulas ou degustações a R$ 195. Workshops a R$ 295 (para alunos avulsos) ou R$ 200 (para inscritos em outras atividades). Informações e inscrições pelos telefones 211-4420 ou 210-0775.


