Combativa, engajada e polêmica
Fora das salas de aula, a atriz construiu uma carreira sólida, que lhe endossou a condição de dama do teatro e da televisão. Além disso, ao longo dos anos, mostrou-se combativa e engajada em questões relacionadas à classe artística. Segundo ela, desde que se fundou o Ministério da Cultura, nenhum bom ministro ocupou o cargo. ''Ninguém que realmente desse um impulso em qualquer campo da cultura no Brasil''. Nem o atual ministro Gilberto Gil? ''Gil não sabe nem o que é teatro.''
Para ela, o teatro é básico. Sem ele, não se tem bom cinema. E sem atores de teatro, não se faz boa televisão. ''O nível nesse campo está caindo muito porque as pessoas acham que basta ficar 15 dias na televisão para serem famosas, são o que se chama hoje de celebridades. O barateamento dessa expressão é revoltante porque celebridade é qualquer garotinha que sai do Big Brother'', observa. ''Qualquer um tem o direito de se propor a ser ator, mas que seja ator, seja atriz. Não modelo, menina bonitinha para mostrar o bumbum, isso não interessa, não traz nada para a cultura.''
E, se sobram papéis para pseudo-atores, faltam para a antiga geração. Com 80 anos de idade, Beatriz nem se lembra mais qual foi o último bom papel que interpretou na TV. ''É uma questão até de mentalidade das pessoas que preparam os projetos. Acho que, em TV, a gente pode fazer muita coisa até os 65, 70 anos no máximo. Não é pessoal, nem nada contra os mais velhos. Há desconhecimento e, por isso mesmo, um desprezo exagerado com os mais velhos, como se eles não tivessem mais nada para dar.''
Ainda no campo do engajamento, a atriz comenta sobre a Lei Cidade Limpa, em vigor desde o começo do mês, e que prevê a retirada de placas e anúncios fora de padrão de estabelecimentos comerciais da capital paulistana. A lei, uma das bandeiras do prefeito Gilberto Kassab, afetou a classe artística também, uma vez que, num primeiro momento, as fachadas de cinema e teatro foram colocadas no mesmo balaio. Após protestos dos artistas, Kassab admitiu os exageros e que adaptaria as medidas.
Até aí, tudo bem. O problema, alerta Beatriz, é que nem fiscais, nem muitos da própria classe estão a par das modificações. ''Quando chegar o fiscal, exijam que ele tenha uma ordem de serviço para isso. E eles não vão ter, porque a Prefeitura não vai dar no caso de teatros, cinemas, projetos culturais e prédios tombados'', dá o recado a atriz, que posiciona favorável à lei, excluindo, claro, os devidos ''excessos de zelo''.
Outro tema que anda em discussão no meio - e repercutido por ela durante a entrevista - é a meia-entrada concedida para quem possui carteirinha de estudante. ''Há 8 anos, comecei a falar sobre o problema da meia entrada para o teatro. É mais um enorme imposto. É difícil fazer teatro, alugar teatro, manter uma companhia. E ainda por cima, o governo nos taxa com 50% da entrada que precisamos cobrar'', argumenta.
''Você é onerado por um imposto que deveria ser fornecido, ou pelo menos, ressarcido pelo governo, porque a obrigação de dar cultura, e isso está na Constituição, é dos poderes públicos. Nós somos particulares, não temos essa obrigação. Quero deixar bem claro que ninguém é contra a meia-entrada. Pode dar, mas não sou eu quem tenho de dar a meia-entrada.'' (A.D.R.)





