''No meu tempo'' é uma das frases mais autocomplacentes que a língua permite. Quem a utiliza afasta de si mesmo qualquer responsabilidade com o presente e inventa um pretérito perfeito, que não existiu e que já não importa mais. Hebe Camargo nunca viveu de passado. Seu tempo sempre foi agora. Nem o câncer lhe tirou isso, como mostrou em seu programa da última segunda-feira.
É curiosa essa vocação para a vida, especialmente de alguém que poderia ser tombado pelo Iphan. Sua história profissional merece urgentemente ser revista em um grande documentário, já que ela participou de todas as etapas da televisão brasileira.
Hebe sempre foi um pouco Mae West, além de cantora e de apresentadora. Ela é nossa mais completa ''entertainer'', essa tradição americana de artistas capazes de divertir uma plateia, conversar com entrevistados e tocar, dançar e cantar. Aos 81 anos, completos durante as gravações, Hebe comprovou que continua presente e querida por fãs de dentro e fora da televisão. Talvez nenhum outro artista pudesse reunir no estúdio um público tão variado, com Xuxa, Marília Gabriela e Ana Maria Braga, da Globo, o cantor Netinho e Amilcar Dalevo, dono da RedeTV!, a menina-prodígio Maysa, socialites, jornalistas, presidentes de multinacionais e os mais diferentes cantores, atores e humoristas.
Convenientemente, Hebe atacou com ''Ói Nóis Aqui Tra Veis'', sucesso dos Demônios da Garoa, além de uma boa entrevista com Roberto Carlos. As lágrimas de Carlos Alberto da Nóbrega e de grande parte da plateia não podiam ser mais verdadeiras. Mesmo de peruca, com os olhos fundos e o rosto muito cansado, brincou com os apresentadores Richard Rasmussem - ''O homem que beijou a cobra'', e Ratinho - ''Não fico com os pelos arrepiados porque, com a quimioterapia, caiu tudo''. E, após uma grave operação e um tratamento doloroso de uma doença que ainda soa como os quatro toques do destino, beijou Ivete Sangalo na boca e fez reclame de cosmético, chocolate e refrigerante. Profissionalismo é isso aí.

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