Com uma coleção de prêmios, "Central do Brasil" luta pelo Oscar
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sexta-feira, 19 de março de 1999
Por Renata Stuani 
São Paulo, 20 (AE) - Neste domingo (21), os brasileiros terão motivos de sobra para grudar os olhos na televisão à espera dos premiados do Oscar, durante uma festa transmitida de Los Angeles para aproximadamente 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Pela terceira vez nos anos 90 e pela quarta vez nos 71 anos de história da premiação, um filme nacional concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro, destinado às produções faladas em língua não inglesa.
"Central do Brasil", escrito e dirigido por Walter Salles e produzido por Arthur Cohn (entre outros), chega à corrida mais disputada da indústria do cinema com chances. Mas "A Vida É Bela", do italiano Roberto Benigni, é o favorito da categoria.
Com ou sem o Oscar, porém, o filme de Salles vai passar para a história do cinema nacional como um vencedor incontestável. Ganhou até agora 34 prêmios, incluindo o Urso de Ouro como melhor filme em Berlim antes mesmo de estrear no Brasil, fato inédito na filmografia nacional.
Com sua história simples, "Central" projetou internacionalmente o nome de atriz Fernanda Montenegro, sua protagonista, que, antes de ser candidata ao Oscar de melhor atriz, já havia saído consagrada do festival de Berlim e considerada melhor atriz do ano de 1998 pela crítica norte-americana.
Filmes admirados pela crítica muitas vezes s o ignorados pelo público. Também não é este o caso de "Central", embora a obra não seja dirigida exatamente ao grande público. No Brasil, já foi visto por 1,5 milhão de espectadores, uma boa marca para o cinema nacional ("Carlota Joaquina", de Carla Camurati, teve cerca de 1,2 milhão de espectadores; "O Quatrilho", de Bruno Barreto, 1,1 milhão).
Quando estreou comercialmente, em 3 de abril de 1998 em 36 salas, "Central" fez tanto sucesso que em poucas semanas chegou ao pico de 80 salas em todo o País. Nas bilheterias, arrecadou R$ 8,6 milhões. Reestreou em 47 salas após a indicação ao Oscar, em fevereiro, e está fazendo sucesso também em vídeo. Nos EUA, arrecadou R$ 2,2 milhões, com 754 mil espectadores até o domingo passado, uma marca excelente para um filme falado em língua portuguesa.
Onde quer que seja exibido, "Central" emociona o público e os críticos principalmente por causa da história, idealizada pelo próprio Walter Salles. O filme retrata a personagem Dora (Fernanda Montenegro), uma senhora pobre, ex-professora, que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estaç o de trem Central do Brasil, no Rio de Janeiro. As cartas nunca chegam ao destino porque Dora embolsa o dinheiro dos pobres, mas nunca leva as mensagens ao correio.
Seu destino muda quando ela cruza com o menino Josué (Vinícius de Oliveira), que se torna órfão de mãe e necessita de ajuda para encontrar o pai no interior de Pernambuco. Na viagem, a velha e o menino iniciam uma amizade que irá transformá-los.
O roteiro premiado, escrito por Marcos Bernstein (de "Terra Estrangeira", filme anterior de Walter Salles) e João Emanuel Carneiro, foi lançado em livro pela Editora Objetiva. Foi por causa dele que Salles conseguiu os US$ 310 mil necessários para iniciar o filme, quantia ganha no concurso de roteiros do Sundance Film Festival (EUA), em 1996.
A escolha do ator que interpretaria o menino Josué daria um outro filme. O garoto Vinícius de Oliveira, então com 10 anos
foi escolhido entre mais de 1.500 candidatos por causa de um encontro absolutamente fortuito. Em 1996, Vinícius trabalhava como engraxate no aeroporto Santos Dumont, no Rio, quando foi pedir dinheiro a Walter Salles. O diretor encantou-se com o menino pobre e desinibido, com o perfil exato para seu personagem, e o chamou para trabalhar no filme. A vida de Vinícius mudou radicalmente: ele mudou-se com a família para um bairro de classe média no Rio, já tem contrato com a Rede Globo e terá seus estudos pagos até a universidade.
Desde o início, os números de "Central" demonstraram que o filme seria uma grande produção para os padrões nacionais. O orçamento foi de US$ 2,9 milhões, alto para o Brasil, embora ridículo diante da indústria de Hollywood ("Titanic" tinha orçamento inicial de US$ 200 milhões). As filmagens duraram nove semanas e terminaram dentro do cronograma. A equipe viajou 10.000 quilômetros no Brasil e utilizou 700 figurantes, principalmente nas cenas de procissão do Nordeste.
Mas um filme não chega até a indicaç o do Oscar somente com bom diretor, bom roteiro e bons atores. É preciso também um vigoroso trabalho de divulgação nos EUA. Na distribuição de "Central", a Sony gastou US$ 1,3 milhão (quase dez vezes menos do que a Miramax gastou com "A Vida é Bela"). O produtor americano Arthur Cohn também foi um dos principais responsáveis pela divulgaç o da obra entre os membros da academia que escolher o o melhor filme estrangeiro. O esforço é válido porque
se ganhar a estatueta, "Central" terá seus rendimentos duplicados ou triplicados.
Além do franco favorito "A Vida É Bela", "Central" terá de ultrapassar outros fortes concorrentes para levar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Entre eles, "Tango", da Argentina, dirigido por Carlos Saura (do cultuado "Cria Cuervos"). Os outros são "El Abuelo", da Espanha, dirigido por Jose Luis Garci, e "Crianças no Paraíso", do Irã, dirigido por Majid Majidi, atualmente em cartaz em São Paulo. A cerimômia de entrega do Oscar será neste domingo, no Dorothy Chandler Pavillion, em Los Angeles, com transmissão ao vivo pela Rede Globo a partir das 22h30.


