COM TOQUE DE BRASILIDADE


Considerado um dos maiores designers brasileiros, Sérgio Rodrigues prefere ser chamado, simplesmente, de projetista de móveis
Silvana Leão
Josoé de CarvalhoSérgio Rodrigues: ‘‘meu móvel é reconhecido pela sua brasilidade, não depende de modismos nem de tendências’’
‘‘A madeira é material vivo, e quando a tratamos com amor, eternizamos o espírito da floresta.’’ Com esta frase, Sérgio Rodrigues, considerado um dos maiores designers de móveis brasileiros, resume sua grande paixão pela matéria-prima que vem da natureza. Uma paixão que se manifestou ainda na infância, através do trabalho de um tio marceneiro, e foi responsável por obras de arte mundialmente conhecidas.
Convidado pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) a ministrar aulas no curso de pós-graduação em Design de Móveis, Sérgio Rodrigues esteve em Londrina no último fim de semana, quando falou um pouco de suas criações e explicou por que não se considera um designer: ‘‘Na minha época de faculdade este termo não existia. Como eu gostava muito de desenho, fiz arquitetura e me especializei em interiores, mais especificamente em mobiliário. Por isso prefiro ser chamado de ‘projetista de móveis’. Designer é o cara que tem conhecimento para desenhar de tudo’’.
A ‘‘poltrona mole’’ criada por Sérgio Rodrigues e considerada a primeira manifestação do pós-modernismo americanoEle porém não faz distinção entre o arquiteto e o designer. Sérgio Rodrigues apenas acha que um está se dedicando a uma coisa um pouco menor, o outro a algo um pouco maior, ‘‘mas tudo é a mesma coisa... é o criador que tem que dar seu produto a uma outra pessoa’’.
A enciclopédia Delta Larousse o incluiu em suas páginas como ‘‘o criador do móvel brasileiro’’. Ele discorda. Para Sérgio Rodrigues, o verdadeiro pioneiro do móvel moderno no Brasil é Joaquim Tenreiro. ‘‘Ele foi escultor, nasceu artista. E tinha tradição de artesão, marceneiro, trabalhava na bancada, tinha todas as características do designer’’, disse certa vez em entrevista publicada na revista Design Interiores.
Aos 70 anos, Sérgio Rodrigues já desenhou e produziu mais de 1.600 móveis e construiu cerca de 250 casas. Entre suas principais criações estão a ‘‘poltrona mole’’, concebida em 1957 e premiada na Itália em 61. Considerada pela crítica Mirian Simpson como a primeira manifestação do pós-modernismo americano, ela deu fama internacional a seu criador e é o único móvel brasileiro a fazer parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Mas o currículo deste sobrinho de Nelson Rodrigues vai muito além. Foi ele quem fez, por exemplo, os móveis da Embaixada do Brasil em Roma e grande parte do mobiliário dos Ministérios, em Brasília. ‘‘Meu móvel é reconhecido pela sua brasilidade. Não depende de modismos nem de tendências. Poderia ser definido como um móvel atemporal, que marca uma região tipicamente brasileira’’, afirma o arquiteto.
Trabalhando atualmente na construção das casas do cantor e compositor Francis Hime e da atriz Regina Casé, Sérgio Rodrigues tenta vencer a resistência da maioria dos brasileiros às casas de madeira para então colocar em prática um esquema industrial de casas pré-fabricadas concebido por ele. São construções feitas a partir do sistema batizado de SR2, que utiliza uma estrutura de madeira de lei (como jatobá, ipê ou maçaranduba) e painéis de vedação independentes. Estes painéis são os responsáveis pela ‘‘cara’’ da casa, pois permitem a colocação de portas e janelas em qualquer local, de acordo com a vontade do cliente.
Defensor incondicional da madeira, Rodrigues acredita que a casa feita com este material tem outro astral. Mas o importante mesmo, segundo ele, é o amor que se coloca na construção de um lar. ‘‘O papel do arquiteto é dar alma ao projeto. Acho que esse algo mais dado à construção é que tem sido deixado um pouco de lado por estes profissionais’’, disse alguns anos atrás.
Há muito o designer aprendeu a amar o cheiro e as possibilidades que a madeira oferece. Trabalhou durante anos com o jacarandá, inclusive para criar os móveis do Congresso Nacional. Chegou a afirmar, certa vez, que tem até uma dor ecológica por ter usado tanta madeira nobre. Hoje, porém, acha que ‘‘essa preocupação ecológica não deve ser de quem faz móveis, mas sim dos biólogos responsáveis pelos reflorestamentos’’.
Assim, Sérgio Rodrigues continua cumprindo seu papel de artista, criando com os materiais que lhe caem nas mãos e lhe agradam. Madeiras resultantes de reflorestamentos, como o eucalipto, já serviram para algumas experiências. Mas o que ele quer mesmo, é continuar dando asas à imaginação e fazendo o seu trabalho, que não depende de tendências momentâneas e nem de vontades externas.

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