Com sabor de História
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 1999
Da Redação 
Elisiê Peixoto, Maria Tereza do Prado e Carla Sehn: autoras do livro que une culinária e HistóriaDe acordo com as tendências do mercado editorial, a culinária sai da mesa e ganha novos horizontes. O alimento deixa de ser um prazer apenas para o paladar para transformar-se, em alguns casos bem-sucedidos, em uma leitura prazerosa.
As livrarias dos grandes centros oferecem uma infinidade de títulos que tratam da culinária. Comida típica das mais diversas regiões do Brasil, comida como importante veículo na preservação da História, comida como tradição cultural, comida contando a trajetória dos imigrantes que construíram este Brasil. Enfim, comida para todos os gostos.
No encalço deste filão do mercado editorial, as jornalistas Carla Sehn e Elisiê Peixoto, junto com promoter Maria Tereza do Prado, têm um projeto que segue os moldes do livro Cozinha de Imigrantes - Memórias e Receitas de Rosa Belluzo e Marina Heck, unindo História e culinária. A idéia é lançar um livro que conte a história dos imigrantes que ajudaram a construir Londrina através das suas tradições alimentares.
Segundo Carla Sehn, em uma primeira parte, o livro trará o relato das famílias dos imigrantes, suas aventuras em terra desconhecida, suas dificuldades, sempre relacionadas aos seus hábitos alimentares. A jornalista afirma que a pretensão é preservar a História e a memória de Londrina através do relato dos imigrantes e suas receitas preferidas.
Nesta primeira parte estarão presentes as receitas e histórias das mais diversas etnias dos colonizadores de Londrina: ingleses, alemães, italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, russos, poloneses, romenos, libaneses e armênios. Além de mineiros, paulistas, gaúchos, nordestinos, paranaenses do Sul e do litoral, afirma Carla Sehn.
A segunda parte do livro trará receitas especiais das pessoas que vivem hoje em Londrina e região. Dividida em categorias - entradas, sopas e cremes, carnes, aves, peixes, massas e doces - esta parte do livro trará as receitas preferidas dos londrinenses de hoje.
Com o nome provisório de Culinária com Sotaque - A Cozinha dos Imigrantes do Norte do Paraná, o livro ainda está em fase de produção e as autoras buscam patrocínio. Empresas ou pessoas físicas interessadas em colaborar podem entrar em contato com as autoras pelos telefones: (043) 334-1096 e (043) 994-1904.
MOLHO
Maria de Los Angeles
Fogo
Que diria nosso amigo Prometeu, aquele do Olimpo que roubou o fogo dos deuses com tanto sacrifício, ao nos ver cozinhando em microondas de última geração? É provável que levasse às mãos à cabeça e dissesse com espanto: até o fogo eles pasteurizaram!
Mas é quase impossível viver hoje, sem apertar ígneos botões. O fogo da cozinha, mesmo com toda parafernália tecnológica, ainda é sagrado. O altar doméstico desde os homens das cavernas. O grande elemento transmutador que, como tudo, bem dosado cria, mal, destrói. Diga-me com que fogo cozinhas e te direi que cozinheira és. O que é preciso saber é que comida e fogo são amantes, cúmplices, sussurram um ao outro a intensidade certa para não se destruírem. E as mãos que lidam com eles têm que ser espertas, calejadas, sem medo de interromper na hora certa esse namoro dos elementos. Na Idade Média o homem se aperfeiçoou na lida com ele. Por ironia, queimavam as bruxas porque elas tinham a ciência do fogo. E elas morriam lambidas pelas salamandras, que são seus elementais.
Com o frio, vários fogos nos aquecem, instintivamente nos aproximamos de tudo que gere calor: sopas, chás, sol, grogues, vinhos, fogueiras, gente, amor.
E para aquecer o coração um pouco de poesia de G. Bachelard : O amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo e, antes de ser filho da madeira, o fogo é filho do homem...O método da fricção surge como o método natural....Além do mais porque o homem chega a ele por sua própria natureza. Surgiu em nós, inesperadamente, antes de ter sido arrebatado ao céu...


