Com referência ao cão brabo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de abril de 2006
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
Quando eu digo: em referência e referente? A.M.S., Recife/PE
À primeira vista, o caso parece banal, mas sei que não é, pois muitas vezes já encontrei em redação de aluno a construção ''Referente ao verbo, não há erro'' quando deveria ser ''Com/ Em referência ao verbo, não há erro''.
A locução ''com referência a'' tem função prepositiva; é invariável; o substantivo ''referência'' é o núcleo de uma construção adverbial; nesta situação, a expressão pode ser substituída pelas locuções prepositivas que relacionamos abaixo:
- Com referência a esses assuntos, é melhor consultar o chefe.
- Com relação ao incêndio, não se sabe a causa.
- Relativamente ao incêndio do Mercado, ainda não temos o laudo.
- Quanto à intenção do réu, nada ficou provado.
- Não se sabe nada no tocante a/ no que toca a suas intenções.
- No que tange a
- No que concerne a
- No que se refere a
- No que diz respeito a
Já a palavra ''referente'' é um adjetivo, um qualificador de nome, e neste caso vem sempre depois de um substantivo; é variável (tem plural):
- Ainda não li a crônica referente à atuação da CPI.
- Convém divulgar as providências referentes ao caso em comento.
- Não serão publicados os artigos referentes à corrupção no Paço.
Pode comutar com outros adjetivos:
- Li o artigo concernente à impunidade no Brasil.
- Alusivo
- Atinente
- Pertinente
- Relacionado
- Relativo
- Respeitante
Dentre algumas consultas sobre o segundo item, destaco a do seu Eduardo, de Minas Gerais, que diz haver ''uma questão de linguajar aqui em casa em feroz (brava? braba?) discussão. Existe um aviso nestes termos: O CÃO É BRAVO. Alguém que se diz abalizado em língua portuguesa, critica e insiste que a palavra bravo para indicar a ferocidade natural de um animal (racional ou não) tem que ter a forma brabo. Pergunto: onde estaria o fundamento dessa afirmação tão categórica e intransigente?''
Nada nem ninguém deve ser tão categórico em questões linguísticas: tanto se pode fazer uma placa com CÃO BRABO quanto com CÃO BRAVO. Particularmente, prefiro a primeira forma, que é tida como coloquial e informal.
Quem for aos dicionários verá que bravo e brabo têm alguns significados em comum e outros distintos. Por exemplo, só bravo é palavra de aprovação (Bravo! Magnífico!). Já a mandioca venenosa é braba. O que é ruim, penoso, difícil, grave, geralmente se usa com B: ''passamos por uma fase braba; que erro brabo; êta inverno brabo''. Mas só se usa o V quando o significado tem a ver com coragem, bravura: ''os bombeiros foram bravos; que mulher brava, suportou tudo''.
Também não se pode esquecer que as consoantes B e V, por serem ambas fricativas, são facilmente permutáveis, como é o caso de bergamota e vergamota (ou a pronúncia ''bassoura'' por vassoura). Sendo assim, não está errado o indivíduo que chama seu cão feroz de bravo ou que diz ''estou bravo'' ao se irritar. Observa-se, contudo, uma preferência por BRABO e BRABEZA quanto de trata de zanga ou raiva, exaltação, arrebatamento, severidade. De qualquer maneira, fica valendo o gosto pessoal no uso de mar bravo e mar brabo, discussão brava e discussão braba, pessoa brava e pessoa braba, por exemplo.
Maria Tereza de Queiros Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br


