Com pudor, mas sem ardor
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sábado, 20 de setembro de 2008
Márcio Maio<br> TV Press 
Os tempos mudaram. Tratadas antes como inovadoras e ousadas, hoje em dia as cenas de sexo são, na maioria das vezes, podadas pelas novas regras de classificação etária da tevê aberta. Sequências de banhos de rio como as vistas em ''Pantanal'', reprisada atualmente pelo SBT, ou mesmo uma relação incestuosa como a da tia cafetina e do sobrinho seminarista, retratada em ''Tieta'', em 1989, hoje jamais seriam permitidas se não fossem exibidas depois das 22 horas. As opiniões sobre o assunto dividem os autores. ''Nunca precisei de leis ou fiscalização para me controlar. Sempre fiz uso do meu bom senso e até hoje não me enganei'', opina Jayme Monjardim, que assinou a direção geral de ''Pantanal'' e atualmente trabalha na minissérie ''Maysa'', que estréia em janeiro, na Globo.
Cristianne Fridman, responsável pelo texto de ''Chamas da Vida'', novela das 22 horas da Record, concorda. ''O horário permite uma liberdade maior para abordar temas adultos. Mas nunca esqueço que as novelas muitas vezes são assistidas por famílias inteiras'', justifica. Para Cristianne, não existe uma relação direta entre cenas sensuais e aumento da audiência. ''Se malfeitas, podem afastar os telespectadores'', analisa.
Marcílio Moraes não pensa assim. ''A apelação sempre funciona. Sexo chama atenção'', atesta ele, que conseguiu prestígio na emissora com ''Vidas Opostas'', em 2006, sem explorar cenas sensuais. Mesmo assim, também não acredita que uma história se sustente só pelo apelo sexual. ''É um recurso que facilmente se torna banal e de mau gosto. A longo prazo, leva quem o usa ao desprestígio'', pondera.
Aimar Labaki, que escreveu ''Paixões Proibidas'' para a Band, carregou nas cenas quentes. O horário inicial de exibição da trama, a partir das 22 horas, e o próprio texto, inspirado na obra de Camilo Castelo Branco, permitia. Mas não foi suficiente para ultrapassar a média de dois pontos de audiência.
Manoel Carlos, que coleciona um sucesso atrás do outro na faixa nobre da Globo, orgulha-se por nunca ter abusado de cenas com sexo em suas novelas. E não se sente amedrontado com restrições de classificação de faixa etária. ''O que limita uma cena é estar mal estruturada e mal pensada pelo autor, assim como mal executada pelo diretor ou elenco'', sentencia o escritor, que explorou a sensualidade de Mel Lisboa quando escreveu a minissérie ''Presença de Anita''. ''Era outro caso. A temática era adulta e o horário de exibição, apropriado''.
Se no horário nobre já é difícil ousar, fica ainda mais complicado fazer isso nas produções que vão ao ar mais cedo. Jorge Fernando, que dirigiu ''Sete Pecados'' às 19 horas, assume que amenizou várias cenas para evitar problemas com a Justiça.
Autora de ''Malhação'', Patrícia Moretzsohn sabe que não pode avançar nas cenas de romance de seus personagens no folhetim infanto-juvenil. Mas também não acredita que isso pudesse levantar a audiência do programa. ''Não preciso explorar o sexo para retratar o universo jovem'', explica. ''Discutimos assuntos como gravidez na adolescência e paraplegia, que são de extrema importância para esse universo''.


