A fusão de linguagens da dança, teatro, literatura, circo, é uma tendência muito forte no balé moderno?
Cada vez mais se procura a interação. Detesto o termo globalização, ainda mais para a arte, mas a vontade de estar ouvindo, compreendendo, assimilando vários códigos, possibilita expressar melhor ou atingir as platéias de modos diferentes. Isso tem sido o diferencial de alguns grupos.
Você poderia citar algum exemplo?
Trazendo o assunto para o Fest-Dança, podemos considerar a Companhia Maguy Marin, que tem uma proposta de investigação de pessoa e de conteúdo, buscando na literatura, no auto-conhecimento, na auto-expressão, na explosão da personalidade a sua maior dedicação. Não é qualquer grupo que consegue fazer isso. Na coreografia ‘‘May B’’, Marin apropria-se dos personagens de Becket, mescla tudo e ainda consegue uma identificação muito grande com o público. Isso é valoroso. Exige um trabalho de corpo exaustivo, tanto que essa coreografia já tem 19 anos, para chegar à síntese dos personagens e conseguir colocá-los em grupo, dançando. Cada indivíduo teve de buscar individualmente a sua expressão para juntar-se só depois ao grupo. Considero esse trabalho imortal, genial, um grande prazer.
Sobre os grupos brasileiros que estão seguindo esse caminho de fusão, você observou alguma novidade?
Vou deixar um questionamento: até que ponto a gente deve usar a arte em função de uma leitura muito pessoal e que não permite abstração da platéia, ser se importar se ela compreende ou não o tema? Não dá para abrir e fechar o espetáculo só para quem conhece Becket ou Marguerite Duras. Falta a nós, que ainda estamos pesquisando, um pouco mais de consideração ao outro que está assistindo. A emoção não deve ficar aprisionada no palco, como no espetáculo ‘‘Exílio’’ e ‘‘Moderato Cantabile’’, da Companhia Regina Miranda e Atores Bailarinos. A companhia Maguy Marin deixa transparecer, claramente, que extrapola do corpo a coisa do humano, de real ou irreal. Não é preciso ter lido Becket para viajar com os bailarinos ao surreal.
E qual a sua avaliação sobre a companhia 1º Ato, de Minas Gerais, que também se apresentou no festival?
Conheço o trabalho deles desde o início. Eles estão mais maduros, as cenas estão mais orgânicas, mais calmas. Mas acho que ainda faltam algumas amarras.
Outro grupo que chamou a atenção foi o Espacio, do Uruguai. Eles desenvolvem um tipo diferente de expressão?
Quem assiste ao Espacio tem de conhecer um pouco da diretora Graciela Figueroa. Ela mantém essa companhia com uma dificuldade financeira incrível. Mas ela se diverte com a dança, com corpos diferentes. Ela subverte a dança, tenta se soltar de qualquer expectativa. Mas ainda sinto falta de mais primor.
A maioria dos grupos apresenta uma pitada de erotismo em suas coreografias. Essa linguagem tem sido uma constante. Isto não estaria aproximando a dança dos apelos televisivos, por exemplo?
Não é uma tendência. Mas o marketing pode fazer com que as pessoas apelem para esse tipo de atenção. Pode também ter sido, para alguns grupos, uma saída. A sobrevivência de um grupo, às vezes, depende de um certo grau de apelação. No festival de Curitiba isto foi bem dosado, nada gratuito. Os grupos falam de atração e desejo de uma forma natural talvez, não ideal.
Finalizando, qual a sua avaliação sobre o Fest-Dança 2000?
Essa iniciativa é heróica, porque muitos festivais estão fechando por dificuldades financeiras. A proposta de os grupos virem e ficarem é muito boa. Em geral, os grupos apresentam-se e vão embora. A oportunidade de troca foi muito proveitosa entre todos os grupos. Aconteceu realmente uma interação. O fato de ter sido programada a apresentação de um grupo por noite, também foi muito interessante. Existe um tempo de montagem de palco, com luz e sonoplastia independente para cada grupo. O festival acontecer em dois teatro, um bem perto do outro, foi um fator facilitador, mas faltou expandir para a cidade, envolver mais a população. O palco montado na Praça Santos Andrade poderia ter sido montado em outros locais. É algo para se pensar para os próximos anos.

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