Com os olhos do coração
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 2010
Bruno Maffi Reportagem Local 
Ibaiti - Desde pequena, a criatividade fazia parte do dia-a-dia de Carolina Reis Dal Bom. Cega de nascença, as brincadeiras da menina iam além do comum. Com suas bonecas encenava as novelas mexicanas que ouvia pela TV. Aos poucos foi inventando novas histórias e um dia decidiu: precisava registrar suas ideias.
Era o dia 25 de julho de 2006, quando ela começou a escrever seu primeiro livro. Por coincidência, dia do escritor. Foram 25 dias para escrever. Um livro não se escreve de uma hora para outra. Ele foi gestado em minha mente, durante vários anos de minha infância e do início da adolescência. Quando coloquei no papel, datilografando na máquina em braile, foi uma grande emoção. Eu entendi que era capaz, que tinha nascido para isso.
Para que as outras pessoas pudessem ter acesso ao livro, que ainda estava em braile, uma amiga de Carolina transcreveu a história. Depois ela mesma digitou a obra, através do programa Jaws, um leitor de tela. Sua mãe ajudou na correção, mas também achou necessário uma revisora contratada. Era uma professora aposentada. No começo quis mudar a história. Não tive medo de bater de frente. Ela chegou ao desplante de dizer que eu não devia publicar. Não me importei. Acreditei na história.
O livro de Caroline é um romance. Conta a história de um casal que sofre para viver seu amor, pois outras pessoas interferem continuamente com mentiras e armadilhas. No meio da história a jovem escritora reservou uma virada, para a surpresa do leitor. Parte dessa história se passa no Brasil, e outra em Marrocos. Para isso, Carolina fez um trabalho de pesquisa, sobre religião, gastronomia, cultura, vestuário, e demais costumes marroquinos.
Quis o destino que meu professor de história da quinta série tivesse o mesmo nome que o mocinho do meu livro. Ouvindo minhas amigas fui criando os traços físicos de cada personagem, e por isso a história se tornou aguardada por muitas pessoas. Sobre o amor que sente pela obra, Carolina dramatiza, dizendo que perdeu a infância por essa história, só pensava nela, era parte de mim, dos meus pensamentos.
No inicío de 2010 houve a segunda edição do Festival de Arte e Literatura de Ibaiti. Foi quando Carolina recebeu a sinalização de sua mãe, a obra seria publicada. Por conta da família. A editora, Espaço de Sophia, foi escolhida por ser de seu professor, o Luciano. Quando as caixas chegaram fiquei muito emocionada. Chorei. Foram sete anos de luta, sonhando, vivendo em função disso. Carolina foi classificada entre os primeiros do festival. Logo depois foi convidada para fazer o lançamento do livro na Faculdade de Jacarezinho. O romance foi adotado pela faculdade e pelo colégio da cidade. Vários exemplares estão disponíveis em suas bibliotecas.
Em Os olhos do coração, a autora registra sua história, além de abordar temas como adoção, deficiências e Síndrome de Down. Parte do livro é sua história real, e parte ela fantasia um futuro para si mesma. E ela já prepara outra obra, prevista para o início de 2011.
Sobre os rumos profissionais, Carolina revela que adoraria viver apenas como escritora, mas entende que no Brasil é muito difícil. Tem que ter outra profissão. Queria ser jornalista, mas penso no mercado de trabalho, moro em uma cidade pequena. Minha família deseja que eu curse Direito. Isso será secundário, minha vocação é escrever.
Mesmo com a dificuldade de encontrar literatura para cegos, Carolina conta que já leu mais de 100 livros. Hoje ela utiliza o programa Dos Vox, que pode ser baixado na internet, e possibilita que o cego escute os livros. Seus autores preferidos são Machado de Assis, Visconde de Taunay, e seu ídolo, José de Alencar. O livro de cabeceira é Mar morto, de Jorge da Amado. A maior alegria da minha vida foi ler um livro, sem precisar que alguém lesse pra mim... Tinha dez anos quando li Mar Morto.


