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José Celso Martinez Corrêa e Antunes Filho (abaixo): dois totens do teatro brasileiro são temas de edições de revistas especializadas

O teatro é uma fonte permanente de especulação teórica. De todas as artes, talvez seja aquela que mais tenha atraído estudiosos de outras áreas, haja vista o vasto legado de idéias constituído ao longo dos séculos com a contribuição de filósofos, psicanalistas, poetas, sociólogos, músicos, linguistas, semioticistas, antropólogos, gramáticos, teólogos e historiadores da cultura.
Muito do que se escreveu sobre as artes cênicas recebeu tradução brasileira, embora a maioria dos títulos já se encontre fora de catálogo. Desde o final do ano passado, porém, uma série de lançamentos parece renovar o segmento anunciando um novo interesse das editoras pelo tema. Aos que duvidam, basta olhar as prateleiras especializadas das livrarias nesta temporada.
O filé do cardápio é a revista Vintém (Hucitec), produzida em São Paulo pela Companhia do Latão e que chega suprindo uma lacuna editorial há muito esperada por gente do metiê. Além dela, já se encontram disponíveis títulos como Teorias do Teatro, Divers/idade - Um Guia para o Teatro dos anos 90, As Trombetas de Jericó, Falando sobre Skakespeare e a reedição de Panorama do Teatro Brasileiro.
A munição é farta e as editoras já estão anunciando seus próximos lançamentos - um deles aborda a trajetória do diretor Antunes Filho. Na fornada, a revista Vintém se destaca dedicando seu número de estréia ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht, alvo de celebrações no centenário de seu nascimento. Com o subtítulo ‘‘Ensaios para um teatro dialético’’, a publicação traz reflexões de artistas e intelectuais herdeiros do pensamento brechtiano incluindo uma entrevista com o diretor europeu Matthias Langhoff, uma conferência do crítico Roberto Schwarz e um depoimento do diretor do grupo Oficina José Celso Martinez Corrêa.
Como de praxe, este último solta a língua.‘‘O palco brasileiro vive uma invasão do teatro infantil em todos os domínios, inclusive na vanguarda’’ - diz ele. ‘‘Engraçado é que mesmo atores de televisão são às vezes realisticamente bons. Quando vão para o teatro - principalmente quando querem fazer uma coisa séria - eles se vêem obrigados a montar um estilo aparentemente moderno de interpretação que fica muito muito esquisito’’.
O mesmo José Celso assina um dos textos de apresentação do livro Divers/idade - Um guia para o teatro dos anos 90 (Hucitec), do crítico Nelson de Sá. O volume é uma compilação das resenhas publicadas entre 1990 e 1996 pelo autor no jornal Folha de S.Paulo e reúne comentários de espetáculos como ‘‘Morte’’, ‘‘Fim de Jogo’’ e ‘‘The Flash and crash Days’’ de Gerald Thomas, ‘‘Suz/O/Suz’’ do grupo catalão La Fura dels Baus’’, ‘‘Orlando’’ de Bia Lessa e ‘‘A Falecida’’ de Nelson Rodrigues com direção de Gabriel Villela.
Sá aposta em tendências e revela suas preferências estéticas. ‘‘O novo é o velho: é o bordão do teatro hoje, ainda que não claramente expresso’’ - anota ele em um dos artigos. ‘‘O teatro do mundo acordou de sua hibernação de belos delírios, de imagens estarrecedoras e está voltando a falar. Como no Brasil, a cena na Grã-Bretanha, no Canadá, na Alemanha, até nos Estados Unidos, está com mania de peças clássicas, e até mesmo de alguns textos novos. Aos trancos e barrancos, o teatro começa a soltar o verbo’’.
Um pouco adiante, escreve: ‘‘Na entrada destes anos 90, o palco descobriu que não podia viver só da Imagem, descobriu que ainda precisava da Palavra. Angels in America anunciou uma nova era do teatro. Um ano depois da estréia em Londres, o americano Tony Kushner é a grande prova de que a dramaturgia não morreu, como queriam alguns’’.
Mas aos que apreciam confrontos de idéias, convém recorrer ao caudaloso Teorias do Teatro (Unesp). O livro, de autoria do americano Marvin Carlson, é um calhamaço de mais de 500 páginas reunindo os debates mais importantes ocorridos desde a Grécia Antiga até os dias atuais em torno das artes cênicas.
Metade do volume é ocupada pelas idéias desenvolvidas ao longo do século 20 não faltando, claro, as célebres polêmicas envolvendo marxistas e formalistas e os realistas socialmente engajados contra os paladinos da arte pela arte. Entre os personagens que circulam pelas páginas, Augusto Boal é o único brasileiro a figurar na antologia, e, mesmo assim, citado como ‘‘diretor latino-americano’’.
Boal é exaltado como ‘‘o mais penetrante e original teórico contemporâneo’’ a explorar as implicações políticas da relação espetáculo-platéia. Carlson repassa ainda as teses de teóricos semióticos, linguistas, feministas e gays que incursionaram pela área nas três últimas décadas. Também adepto de análises abrangentes, o renomado crítico Sábato Magaldi reaparece com seu Panorama do Teatro Brasileiro (Global), revisto, atualizado e em terceira edição.
Considerado hoje um clássico, o volume recebeu dois apêndices nos quais o autor examina o texto no teatro moderno e as tendências contemporâneas. No mês que vem, ele deve bater ponto nas livrarias com uma coletânea de textos intitulada Moderna Dramaturgia Brasileira, onde focaliza 30 autores nacionais partindo do arauto da antropofagia Oswald de Andrade.
Sem a unanimidade favorável que cerca Magaldi, a temida crítica carioca Barbara Heliodora também está frequentando as prateleiras cultas nesta temporada. Desta vez não como tradutora, mas como ensaísta. Em Falando sobre Shakespeare (editora Perspectiva), ela reúne textos introdutórios sobre o dramaturgo inglês que criou ‘‘Hamlet’’ e ‘‘Otelo’’.
O livro, com prefácio de Gerd Bornhein, contém desde informações sobre as influências que marcaram a formação do escritor até análises de suas peças. Com exceção de alguns artigos publicados em revistas especializadas inglesas, a maioria dos trabalhos se constitui de conferências proferidas ao longo de 15 anos. Menos famosa que a crítica do O Globo, mas não menos rigorosa, a pesquisadora da USP Silvana Garcia chega ao público com o primeiro estudo produzido no Brasil sobre as vanguardas teatrais do início do século.
Intitulado As Trombetas de Jericó - Teatro das Vanguardas Históricas (Hucitec), seu novo livro aborda os movimentos futurista (Itália), cubo-futurista (Rússia), expressionista (Alemanha), dadaísta (Suíça) e surrealista (França) que sacudiram os palcos europeus entre 1909 e 1933. O volume é resultado da tese de Doutorado que ela defendeu na Escola de Comunicação de Artes da USP.
Como se vê, as editoras investem no filão e os lançamentos abarrotam as livrarias. Tanto neófitos como iniciados, já não tem do que se queixar.

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