COM O OUVIDO AO PÉ DO RÁDIO
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domingo, 09 de dezembro de 2001
Antônio Mariano Júnior<Br>De Londrina 
Um tango açucarou a noite de Londrina naquele 11 de setembro de 1943. O bolachão preto os pesados discos de 78 rotações rodava, rodava, rodava e de seus sulcos eram extraídos os acordes de ''Oh! Estes Olhos Negros''. A música escolhida, sabe-se lá por quem e por que, anunciava que a Rádio Londrina estava começando a funcionar em caráter experimental oficialmente a inauguração aconteceu meses depois, exatamente no dia 15 de novembro. A partir dessa data, Londrina, encrustrada no sertão do norte paranaense, ganhava sua primeira emissora de rádio que passou a distribuir sonho e magia cidade afora.
Sim, Londrina cresceu com o ouvido ao pé do rádio. Numa época em que as formas de entretenimentos pouco se insinuavam, eram para as ''caixas falantes'' que as pessoas geralmente acorriam. Gente rica e gente pobre se deixava levar por vozes e músicas e fatos, tudo com o aval de gentis patrocinadores. ''Do empresário até o profissional, todos dizem que rádio não dá investimento, então só pode ser paixão'', resume a professora Francisca Sousa Mota e Pinheiro, autora do livro ''Da Rádio Londrina à Rádio Universidade - Uma História de Muitas Histórias'', recém-lançado.
Foram mais de 10 anos de pesquisas para traçar uma trajetória de quase 60 anos. Para sedimentar sua obra, Francisca foi a campo. Ou seja, entrevistou personagens que fizeram e fazem história ao todo foram registrados depoimentos em 58 fitas cassetes que resultam num total de 48 horas ou 2.880 minutos de gravação, como detalhe na abertura do livro. Trata-se de um minucioso e consistente trabalho em que a professora do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina destaca fatos, curiosidades. Informações, muitas e boas informações.
Os pioneiros foram todos listados. Entre eles, Aymoré Kley, Antonio Marcos, Raul Zanoni, Raul Pedro Dal-Col, Irene Holsman, J. Negrão, Alziro Segantin, Otássio Pereira, entre outros.''O rádio é apaixonante por suas potencialidades como a linguagem, o imediatismo e a mobilidade você pode ouvi-lo em qualquer lugar'', frisa Francisca.
Pois muito que bem, foi através da Rádio Londrina que a mitologia surgiu. E quem deu fôlego nobre à emissora foi Aymoré Kley, que assumiu a direção artística da emissora em 1945, dois anos depois de sua inauguração do pequeno imóvel na Santa Catarina, passou para um grande barracão de madeira com capacidade para 120 pessoas (localizado na Rua Goiás), em maior de 1946; até finalmente, em 55, ter um auditório com capacidade para 512 pessoas na Quintino Bocaiúva, onde até hoje funciona a emissora.
Com o pseudônimo Pirajá, ele quem agitava a vida da cidade através de programas como ''Clube da Raia Miúda'' (infantil), ''Cassino de Atrações'' e ''Parque de Diversões''. Foi Aymoré, inclusive, quem imprimiu glamour em seus programas de auditório ao levar artistas de grande sucesso nacional. Sob seu comando, ele levava ao delírio fãs que não se faziam de rogados e desembolsavam o que fosse para ver e ouvir ao vivo artistas como Cauby Peixoto, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, a extraordinária Dalva de Oliveira e as rivais Marlene e Emilinha Borba.
Desses mitos, Aymoré tem boas recordações. ''Emilinha era sempre a mais aplaudida; ela era muito boazinha. Já Marlene não tinha essa espontaneidade'', informa. Outro fato engraçado. Certa vez, Angela Maria veio a Londrina. Bela, formosa e cheia de amor para dar, a ''sapoti'' viu o humor chegar ao fim quando, ao descer do avião, enfiou o pé na mala. ''Ela ficou muito brava'', recorda-se com um sorriso maroto.
Se para o público tudo era alegria e acontecimento, por trás ninguém sabia das peripécias que ele e muita gente faziam para manter a emissora.''Era uma época difícil porque não tínhamos muitos recurso como hoje. Os que faziam rádio naquela época eram verdadeiros heróis'', afirma. Foram 15 anos de atividades radialísticas que Pirajá alternava com o trabalho no Banco do Brasil, de onde era funcionário. Depois desse tempo, ele foi para a televisão, onde também fez nome o rádio começa a perder a magia com o advento da engenhoca que transmitia som e imagem.
Aymoré não é um homem que vive de passado. Talvez por modéstia, prefere se ater a fatos cronológicos do que propriamente sua deitar falas sobre sua contribuição à história radiofônica. Mas deixa escapar uma frase enquanto vasculha recortes de jornais: ''Eu sinto de saudade, um pouco de saudade daquela época, sim''. E complementa: ''Hoje no rádio a maioria dos apresentadores grita, não fala. Antes havia um jeito mais moderado, um estilo mais bonito de se relatar as coisas''.
A segunda geração dos fazedores da história do rádio em Londrina, José Makiolke também pode ser considerado um ícone ou um mito que se solidifica cada vez mais. Entre tiradas bem-humoradas, Zezão, que está na ativa há 37 anos, faz uma observação pertinente: ''Da magia, o rádio passou para a realidade. Hoje é por excelência um prestador de serviço''.
No rádio ele começou em 1964, na Rádio Difusora. Entre outras coisas, o que o atraiu foi a possibilidade de expandir sua carreira de ator ele já atuava em teatro amador nas radionovelas. E o que não falta são passagens risíveis. Como na novela intitulada, vejam só, ''Flor do Mato''. Começou fazendo um preto velho, mais adiante ganhou outros dois papéis, o de feitor e de um moleque. Um belo dia, com a novela já em andamento, ele se viu numa saia justa numa cena em que os três personagens contracenavam. E ele deu conta. Detalhe: a novela era ao vivo.
Entre os programas que apresentou inicialmente, um era direcionado à juventude. Ia ao ar diariamente, das 13 às 14 horas, e tocava o que de considerado moderno tocava, por exemplo, Beatles e Elvis Presley. Outro tinha o instigante nome de... ''Colar de Tangos'' cujo slogan era ''o maior desfile de música portenha. Makiolke teve passagem por várias rádios, mas foi na Paiquerê AM é que parece ter encontrado seu habitat natural. Atualmente, apresenta dois programas um das 9 às 11h30; outro das 21 horas à meia-noite. ''Tudo, TUDO o que pode imaginar eu já fiz em rádio, menos esporte. Talvez porque minha formação tenha sido mais a linha de entretenimento e shows'', admite.
O sucesso e a credibilidade dele junto ao público podem ser resumidos em duas palavras: verdade e renovação. ''Não adiante querer cristalizar a imagem de 'o grande locutor'. É preciso se adaptar aos tempos e é isso que eu faço'', declara. Sobre seu ofício ele é enfático: ''Pode ser chavão, mas para mim comunicar-se é dar-se''. Certo, Zezão, certíssimo!


