São Paulo - Globos de Ouro para melhor roteiro original e ator coadjuvante - Quentin Tarantino e Christoph Waltz. A expectativa é de que pelo menos esses dois troféus se repitam no Oscar, e "Django Livre", que estreia hoje, foi indicado para mais quatro prêmios da Academia, incluindo o Oscar principal, de melhor filme. Em dezembro, num hotel de luxo de Nova York, a reportagem conversou com o diretor e os atores Jamie Foxx, o Django, Kerry Washington, como a mulher que o escravo liberto tenta resgatar, e Samuel L. Jackson.
Deles, Jackson é o que mais tem convivido com Tarantino - uma parceria que começou há quase 20 anos, com "Pulp Fiction - Tempo de Violência", em 1994. Tarantino estabeleceu-se como autor, Samuel L. Jackson virou um dos astros afro-americanos mais conhecidos do cinema de Hollywood na atualidade. Como é estar de novo no elenco de Tarantino? "O filho da mãe sabe fazer convites irrecusáveis. Escreve papéis que são brilhantes. Como resistir a fazer esse novo Pai Tomás?", pergunta-se Jackson.
Ele se refere ao personagem de "A Cabana do Pai Tomás", livro de Harriet Beecher Stowe que se tornou emblemático sobre o período da escravidão nos EUA. O livro causou tamanha comoção em seu tempo que o próprio presidente Abraham Lincoln teria dito à autora: "Foi a senhora quem provocou esta guerra" - referia-se à Guerra Civil, entre o Norte industrializado e o Sul agrário.
O curioso é que Pai Tomás é hoje banido em muitos Estados norte-americanos por causa da palavra 'nigger', que nos EUA tem uma conotação pejorativa. Tarantino colheu muitas críticas por também usar a palavra 'N' em seu filme. "Ridículo, isso não faz sentido", observa Jackson. "A palavra em si não é uma violência maior do que as outras que se praticavam contra os afrodescendentes. Pode-se mostrar, então, a brutalidade física, mas não a oral?", ele pergunta.
Jackson lembra que sua mãe adorava os filmes e foi quem estimulou nele o desejo de se tornar ator. "Via spaghetti westerns, mais na TV do que no cinema, mas eles fizeram parte da minha juventude." Os spaghetti westerns marcaram tanto o jovem Tarantino que ele também sempre sonhou em realizar um grande filme do gênero, o que concretiza agora com "Django Livre".
O próprio Tarantino disse para a reportagem que escreveu o personagem do dr. Schultz - que usa a atividade de dentista como fachada para a de caçador de recompensas - para Christoph Waltz, que já havia criado de forma tão brilhante o Coronel Landa de "Bastardos Inglórios". Sua primeira escolha para "Django" foi Will Smith, mas ele terminou optando por Jamie Foxx, que ganhou o Oscar por "Ray" (a cinebiografia de Ray Charles).
Em "Ray", de Taylor Hackford, Foxx usava óculos escuros em muitas cenas. Ele os usa de novo em "Django". Um negro que pega em armas para caçar recompensas? Que passa boa parte do filme portando óculos escuros? "O modelo que uso no filme tem respaldo histórico, mas o fato de o personagem o usar como estilo, para ficar cool, é liberdade do diretor", ele diz. Foxx precisou passar por muito treinamento - com armas e cavalos - para fazer o papel. Ele também não se incomodou com a palavra 'N'. "Se o filme tivesse qualquer conotação racista, teria sido o primeiro a mandar Quentin se f...", ele explica.
Kerry Washington é ainda mais bela ao vivo do que parece no filme. Nos EUA, ela é uma estrela de TV, graças à série "Scandal", na qual interpreta uma gestora de crises em Washington. Kerry e Jamie Foxx circulam pelo glamour do show biz, mas a violência da escravidão e do racismo está longe de ser estranha (uma novidade?) para ambos. "Temos histórias de família que se referem a toda essa barbárie", reflete Foxx.
"O racismo é uma coisa que ainda permanece muito viva na sociedade norte-americana. Não se refere a um passado distante. Posso lhe falar do racismo que conheço toda minha vida", diz Kerry. "Django Livre não é só uma fantasia histórica. Filmes como o de Quentin e o Lincoln de (Steven) Spielberg são importantes porque discutem questões que, no imaginário coletivo, ainda não estão resolvidas."

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