COM 'MOULIN ROUGE'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
Nada parece capaz de superar o megaespetáculo a que a mídia daqui e do resto do mundo se submete todos os anos. Até ontem, as manchetes da imprensa francesa diária (Liberatión, Le Monde, Figaro, Nice-Matin) vinha trabalhando em cima da vergonha nacional revelada recentemente num susto. O pessoal da Liberté, Egalité, Fraternité, quem diria, foi responsável por inimagináveis atrocidades torturas de prisioneiros, as mais amenas durante a guerra colonialista da Argélia, segundo espantosas revelações de um general de peso e influência no imaginário popular da velha Gália. Juntem-se a essas denúncias os ecos da tragédia econômica e moral da vaca louca, o fantasma da febre aftosa e enchentes sob um céu agora literalmente de chumbo está configurado o quadro de uma França momentaneamente de mal com a vida.
Não que a situação tenha se alterado, ou os problemas estejam resolvidos. A diferença é que as primeiras páginas vão estampar, nos próximos 12 dias, um amplo, geral e irrestrito noticiário desta festa luminosa, deste cada vez mais festejado Festival Internacional do Filme de Cannes, este ano comemorando sua 54ª edição. Em 2001 a seleção se revela de uma riqueza e de uma variedade impressionantes, provando uma vez mais que o cinema é uma arte que deve refletir o seu tempo, coroando a temática social de autores exigentes, austeros e às vezes radicais. O festival mais uma vez deve também cumprir sua missão de descobrir talentos, e esta é sua magnitude: apresentar o cinema em processo de diversidade, este cinema que deixa conviver paixões contraditórias e ambições antagonistas. Equilíbrio e equidade, por si só, justificam a existência do Festival de Cannes. E sua perenidade, acrescente-se.
E a mostra competiva começou muito bem, com a exibição de Moulin Rouge, a mais consumada extravagância cinematográfica deste início de século. O filme é um acontecimento, um esplêndido fogo de artifício, e Cannes deve dar a ele a merecida ressonância. É bom começar não esquecendo que o diretor australiano Baz Luhrmann não faz nada parecido com o que fazem outros diretores. Vem Dançar Comigo, seu primeiro e desconcertante filme em 92, e Romeu + Julieta, em 96, já ofereciam farta gama de novidades, no tema e na estrutura narrativa. Agora, com este que o diretor chama de terceira e última etapa da trilogia cinema da cortina vermelha (red curtain cinema), estilo teatral. Luhrmann transporta o espectador à aurora do século passado, cerca de 1900, zona boêmia de Montmartre.
Moulin Rouge não é um remake do filme de John Huston e menos ainda do clássico French Cancan, de Jean Renoir. É uma comédia dramática musical, livremente adaptada do mito de Orfeu. A música? Não apenas está por toda parte como surpreende a cada momento. Cantada (pelo próprio elenco, Nicole Kidman e Ewan McGregor até que bem afinados), o repertório revisita e recicla hits do pop contemporâneo, de Madonna a Elton John, de Fat Boy Slim a Sting. não esquecendo uma espirituosa releitura de The Sound of Music. Em síntese, Luhrmann reinventa, reestiliza o gênero em cada um de seus departamentos.
A história, em essência sobre amor e inspiração, se passa no infame, perigoso, glamouroso night club Moulin Rouge. Mas não é o chamado filme de época, muito em função do mix de cerca de 300 efeitos especiais com a trilha musical inusitada. Nicole Kidman interpreta Satine, a maior estrela do clube, cortesã famosa, levada a escolher entre Christian, jovem poeta e compositor apaixonado, protegido de Toulouse Lautrec, e o pérfido duque de Monroth. O que se pode questionar é uma segunda e última hora do filme
menos brilhante que a metade inicial, quando Moulin Rouge perde um tanto em leveza e picardia e recebe dose maior de dramaticidade. Mas o todo exuberante reeequilibra esta descompensação.
Durtante coletiva concorridíssima, mas tranquila em seguida à projeção, Luhrmann apresentou-se aos jornalistas tão feérico quanto Moulin Rouge. Discursivo, o cineasta tentou justificar a bandeira australiana num filme que tem inequívocas marcas de globalização. O que afinal não é demérito, mas constatação quanto ao registro de um produto que também começa aqui a trilhar extensa carreira comercial (a estréia brasileira está prevista para 24 de agosto). Falou muito sobre a cultura popular que o filme incorpora, o que de resto é notório e benéfico.
Nicole Kidman absolutamente blaseé. Tranquila, risonha e até franca, para quem passa por assédio insidioso promovido por tablóides ordinários. Ninguém quis saber da vida privada da atriz, de relações afetivas passadas, presentes ou futuras. O assunto era o filme e assim foi até o final da entrevista. Civilização é outro departamento.
Uma polêmica doméstica a preencher generosos espaços e a acirrar ânimos gauleses, por natureza já irritadiços. O atual fenômeno de bilheteria em toda a França chama-se Le Fabuleux Destin dAmélie Poulin, de Jean-Pierre Jeunet (Alien 4), adesão entusiástica de quase dois milhões de espectadores em apenas duas semanas de exibição. E o que mais? O filme, também uma unanimidade entre a crítica daqui, foi mostrado em fevereiro à comisão de seleção de Cannes e recusado. Está como diabo gosta, e com título de filme: LAffair Amélie Poulin.


