Com história não se brinca
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de agosto de 1998
Silvana Leão 
O projeto de ampliação do Museu de Arte de Londrina, divulgado recentemente em matéria publicada pela Folha de Londrina/Folha do Paraná e que prevê o fechamento com vidro de alguns dos arcos do edifício, levanta mais uma vez a discussão sobre o cuidado com a preservação e não descaracterização de prédios históricos da cidade. Embora seja um município relativamente novo, Londrina já teve sua região central reconstruída pelo menos três vezes: primeiro com as construções de palmito; depois com as casas de madeira em um ou dois pavimentos e, mais recentemente, com os arranha-céus que em muitos casos tomaram o lugar daquelas antigas edificações.
Arquivo FolhaArcos do Museu de Arte já receberam apoio de colunas não previstas por Villanova Artigas: fechamento com vidros representaria descaracterização ainda maiorEm outras palavras, parte da história da cidade foi destruída em nome das necessidades geradas com o seu rápido crescimento. Os exemplos são clássicos. Entre eles estão a antiga catedral e o prédio construído para abrigar a prefeitura, na esquina das ruas Minas Gerais e Santa Catarina. Sem falar nos projetos que, de tanto sofrerem intervenções, acabaram sendo descaracterizados, como a Praça da Bandeira (ao lado da Catedral), que originalmente não abrigava árvores.
Para o arquiteto Marcos Fagundes Barnabé, professor da Universidade de Londrina e membro do Conselho Estadual de Cultura, os espaços que trazem um valor histórico deveriam ser preservados, mesmo que sofrendo uma mudança de função, a partir do momento que vão se tornando ineficientes para o tamanho do município. Um exemplo é o prédio do antigo Fórum (atual Biblioteca Pública), observa.
Arquivo FolhaDestruição da antiga Catedral de Londrina (à esquerda) foi uma grande perda para a cidade. A nova catedral apresenta arquitetura inconsistente na opinião de Marcos BarnabéSolução bem menos feliz, na opinião de Barnabé, foi a encontrada para a catedral da cidade. Perdemos um elemento de características marcantes, que fazia parte do imaginário da população londrinense, substituindo-o por outro que, arquitetonicamente falando, é inconsistente, diz. Como se não bastasse, o arquiteto acha que a iniciativa de construir um estacionamento no subsolo - local que sempre teve um papel importantíssimo na história - pode ser considerada uma ingênua profanação de um espaço sagrado.
Marcos Barnabé lembra também do edifício residencial que existia na esquina da rua Professor João Cândido com Pará, que foi demolido para se transformar em estacionamento para veículos de funcionários públicos. Em face destes equívocos já cometidos, seria interessante que os londrinenses tivessem um pouco mais de cuidado e refletissem sobre qualquer intervenção em edifícios históricos.
Como exemplos de bom senso, o professor cita o prédio da antiga cadeia pública, que só não foi derrubado pela ação de alguns cidadãos que impediram a entrada do trator e o palacete dos Garcia Cid, na avenida Higienópolis, que não fosse o discernimento da família, provavelmente já teria sido demolido. Quanto ao Edifício Autolon, que passa por reformas, eu espero que a Fundação Villanova Artigas tenha sido consultada.
Em relação às muitas casas de madeira que um dia caracterizaram Londrina - algumas delas belíssimas - Barnabé não vê nenhuma preocupação em preservá-las. E no entanto, elas contam como Londrina foi colonizada e quem eram as pessoas que para cá vieram, lembra. O arquiteto acredita que, antes de autorizar qualquer mudança em edificações que representam a nossa história, é preciso acima de tudo generosidade com as pessoas que as construíram. Elas nos legaram belas obras, como as praças centrais, tão refinadas do ponto de vista arquitetônico.
ArquivoAntigo prédio da Prefeitura Municipal de Londrina (ao fundo) sumiu do mapa: hoje, no mesmo espaço, funciona uma agência bancáriaBarnabé também acredita que a venda do terreno que abrigava a antiga prefeitura foi desnecessária. O município não precisava destes recursos para se desenvolver. Hoje este dinheiro não representa mais nada para nós e no entanto não temos mais um edifício símbolo da vida da cidade, argumenta. Hoje só restou o belo painel que está na Universidade de Londrina, salvo pela abnegação de estudantes de arquitetura.
Para Humberto Yamaki, professor da UEL e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Núcleo Londrina, a adaptação de edifícios históricos é um tema pouco trabalhado, inclusive no Brasil. Segundo ele é comum dar-se preferência à substituição, quando poderia se pensar em uma transformação aditiva.
Temos assistido com grande preocupação um processo sistemático de desfiguração, dilapidação e destruição de edificações e espaços públicos significativos em Londrina. A ocupação fragmental e desordenada do pátio ferroviário, desrespeitando a visão de conjunto (hoje irreversível) e o aterro e ocupação do Igapó são partes deste processo. Humberto lembra que é fundamental conservarmos algumas pistas do caminho que a cidade vem trilhando.
O arquiteto observa que, em alguns casos, são construções simples, mas que guardam características importantes e por isso devem ser preservadas. A melhor alternativa, acredita ele, é mudar a finalidade do espaço mantendo os traços originais, como o que foi feito no antigo barracão que hoje abriga o Empório Guimarães, na Rua Paraíba.


