Com gosto de reprise
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de julho de 1998
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Tudo começou quando Matt Damon cursava literatura na Universidade de Harvard. Ele escreveu um conto sobre um garoto pobre que se revela um gênio precoce na matemática. Encorajado pelos professores, Damon convocou o amigo Ben Affleck - os dois se conhecem desde criança - para que ambos transformassem o conto num roteiro que haveria de lançá-los como astros. Esse roteiro, já com o título de Good Will Hunting, foi comprado pela empresa Castle Rock e depois de muitas reviravoltas foi filmado por Gus Van Sant, recebendo o Oscar de melhor roteiro original.
Acaba de ser editado agora no Brasil pela Rocco, na coleção Artemídia, com o mesmo título que o filme recebeu no País, Gênio Indomável. É um dos dois lançamentos de livros ligados a cinema que estão chegando às livrarias. O outro é o romance O Furgão, de Roddy Doyle, em que Stephen Frears se baseou para realizar o filme de mesmo nome. Um roteiro e um romance. Roteiros são páginas mortas, diz o grande Michelangelo Antonioni, um dos autores mais importantes de toda a história do cinema. Antonioni acrescenta que roteiros não são feitos para ser lidos como romances e alguns deles não dão nem sequer a idéia do que será o filme, pois não são poucos os diretores, principalmente em Hollywood, que subvertem os roteiros para fazer obra mais pessoal.
O roteiro de Damon e Affleck percorreu um longo percurso até virar filme de sucesso. Num determinado momento, quase virou um thriller, pois a dupla teve a idéia de transformá-lo num policial em que Will seria perseguido por uma agência do governo norte-americano interessada na sua habilidade para a matemática.
Felizmente, os dois desistiram e o roteiro voltou ao formato de drama psicológico. Persistia, porém, um impasse: a Castle Rock queria fazer o filme com atores conhecidos e Damon e Affleck não abriam mão de fazer os papéis. A solução veio quando Gus Van Sant entrou no projeto e Damon saiu do anonimato para conseguir o papel principal na versão de Francis Ford Coppola para o best seller de John Grisham, O Homem Que Fazia Chover.
Um pouco dessa história está resumida no prefácio que Van Sant escreveu para Gênio Indomável. Ele destaca o que lhe atraiu no roteiro: o personagem de Will se esconde de alguma coisa. Ele não sabe, mas está escondendo sua boa vontade (que outro personagem, Sean, procura), trocando-a para ficar em segurança num lugar em Boston onde se bebe e ele tem um grupo de amigos que o protegem física e emocionalmente.
Van Sant ficou famosos por filmes criativos e inovadores como Drugstrore Cowboy e Garotos de Programa. Num certo sentido, decepcionou seus fãs porque eles acharam a dramaturgia do roteiro de Gênio Indomável muito tradicional. É mesmo, o que a edição em livro confirma. Mas é difícil resistir à leitura. Damon e Affleck criaram seus personagens com tão perfeita clareza de propósitos e lhes deram uma densidade psicológica tão grande - surpreendente, até, considerando-se que são tão jovens - que o leitor se entrega ao livro como os espectadores se entregaram ao filme (foi um dos grandes sucessos do ano).
O Furgão faz parte de uma trilogia de Roddy Doyle sobre os Rabbittes, uma família operária de Dublin. Todos os livros viraram filmes. O primeiro foi The Commitmentes - Loucos pela Fama, dirigido por Alan Parker, e o segundo, The Snapper, dirigido por Frears, que também fez O Furgão. The Snapper ficou sendo A Grande Família no Brasil. É um bom título. Revela um pouco das intenções de Doyle e do próprio Frears. Doyle é um antigo professor de inglês. Seus livros bateram recordes de edição na Grã-Bretanha.
Doyle faz um retrato realista da vida do subúrbio. Em O Furgão, dois amigos desempregados unem suas economias para criar uma lanchonete sobre rodas. A época é a Copa do Mundo de 1990, quando os irlandeses chegaram às quartas-de-final. Doyle mistura tudo - realidade social, futebol, cerveja, o ódio pelos ingleses. Seu romance pode não ser uma obra-prima literária, mas é gostoso de ler.


