‘‘Espero não morrer sem escrever algo sobre Borges. O que posso fazer é somente contar como o vi, como ele foi comigo. Corrigir alguns erros que se cometeram sobre ele.’’ O escritor Adolfo Bioy Casares, que completa 84 anos hoje, está prestes a cumprir o desejo expresso em suas ‘‘Memórias’’: publicar um livro sobre o parceiro Jorge Luis Borges. Borges e Bioy, dois dos maiores escritores da história argentina e mundial, escreveram livros a quatro mãos e tiveram amizade de meio século, interrompida pela morte do primeiro em 1986.
Pelo que conta Bioy, ‘‘Conversações com Borges’’ será um marco para a literatura. O escritor prepara o lançamento para 1999, quando o amigo completaria cem anos.
‘‘Entre as décadas de 40 e 80, Borges vinha comer na minha casa quase todas as noites. Nas manhãs seguintes, eu escrevia o que havíamos conversado em meu diário. Dessa forma, produzi 2.000 páginas’’, diz Bioy. Ele lembra como ‘‘amor à primeira vista’’ a relação com Borges. ‘‘O segredo de nossa amizade, de nosso trabalho conjunto foi a ausência total de vaidades. Nunca quis impor minha visão a Borges, nem ele a mim.’’ Para organizar o livro, Bioy trabalha há dois anos em seus diários com o escritor Daniel Martino, no mesmo apartamento em que jantava com Borges, no tradicional bairro portenho da Recoleta.
Bioy e Martino selecionam trechos, decifram códigos usados para manter o segredo dos escritos, fazem a pesquisa histórica e redigem as notas do livro. Pronta, a obra deve ter cerca de mil páginas. A intenção dos dois é, no meio de tantas biografias que existem sobre Borges, mostrar o lado humano, cotidiano do escritor. Corrigir os estereótipos que simplificam o autor como uma pessoa fechada, triste e arbitrária.
‘‘Bioy conheceu profundamente Borges. Os textos trazem o escritor alegre, com uma incrível capacidade de extrair humor de fatos do dia-a-dia’’, afirma Martino. ‘‘Mais do que a visão e o relato de Bioy sobre a fase plena de Borges, o livro é o diálogo entre os dois. Há de passagens engraçadíssimas a grandes discussões sobre literatura universal’’, completa. Em entrevista, Bioy falou sobre a vivência com Borges, seus demais projetos literários e ‘‘De un Mundo a Otro (Temas, 1998)’’, seu último livro.


Como conheceu Borges?
Fui convidado para um fim de semana em San Isidro (grande Buenos Aires), na casa de Vitória Ocampo, minha cunhada. Estávamos todos num banco largo. No centro, estava Vitória e um italiano, que era um blefe. No fundo, à esquerda, fiquei o tempo todo conversando com Borges. De repente, Vitória se levantou e nos disse: ‘‘Não sejam merdas. Falem com o senhor e não entre vocês.’’
Como reagiram?
Borges se levantou com raiva e, sem querer, quebrou um abajur. Juntou os pedaços e, depois, continuamos falando todo o tempo entre nós.
Como era na prática escrever junto com Borges?
Nos divertíamos muito. Eu escrevia, ficava com a caneta na mão. Os dois davam palpites. Quando voltamos a escrever sozinhos, sentimos o trabalho como algo terrível. Juntos, quando chegávamos a um momento difícil da narrativa, um dos dois solucionava o problema. Solitários, concentrávamos a responsabilidade.
Mudaram de estilo no trabalho em parceria?
Nós éramos partidários de contar histórias em que apresentávamos uma situação e, depois, a resolvíamos logicamente. Quando escrevemos juntos, esquecemos isso devido à vontade de fazer piadas. Então, fizemos histórias em que nos perdíamos. Nos perguntávamos: ‘‘E agora, como sair dessa situação?’’ Borges me questionava: ‘‘O que fazemos com esse personagem?’’ Perdíamos de vista o que desejávamos.
Em seu último livro, o sr. define a velhice como algo que ‘‘isola, nos fecha os ouvidos, nos tira a luz e os olhos’’.
É assim. Uma vez, estava tomando umas massagens, para me sentir melhor, e o massagista disse: ‘‘A velhice é uma merda, senhor Bioy. Não acha?’’ ‘‘Sim, acho’’, respondi (risos).
Como define o tempo?
Espaço e tempo é algo que não percebemos, até que chegam as doenças, a velhice e a morte. O tempo é um inimigo, que muitas vezes se apresenta como amigo, mas no final...
Em ‘‘De un Mundo a Otro’’, os personagens tomam um foguete e a história passa em outro planeta. Há limites entre a literatura fantástica e a ficção científica?
Acho que aonde aparecem as máquinas, é ficção científica. Quando é simplesmente um milagre, uma coisa inexplicável, que muda tudo, é literatura fantástica.
Por que dedicou o livro ao escritor H.G. Wells?
Foi um agradecimento. Wells é a principal influência da literatura fantástica. Nos livros escritos por ele, no fim do século passado, sempre ocorre de golpe um fato fantástico.
Javier Almagro, personagem do livro, é jornalista. Qual sua relação com jornalismo?
O jornalista é o que está mais perto do escritor. O jornalista escreve todos os dias. O escritor também, dentro do possível. Se usasse escritores como personagens seria chato. O jornalista é simpático e menos presunçoso.
Almagro é um personagem autobiográfico?
Sempre presto atenção para que os personagens não virem meu reflexo. Nesse caso, me cuidei menos. Não imaginei uma pessoa completamente diferente de mim. A angústia de se perder em outro mundo teria mais força se eu mesmo a sentisse.
Como um escritor que narra inventos fantásticos analisa os atuais avanços tecnológicos?
O mundo segue cruel, mas essas coisas são como remédio caseiro. Não muito bons, mas aliviam. A televisão, por exemplo, é um bom entretenimento.
O que o sr. gosta na TV?
Gosto de uma boa novela. Não essas que passam para as senhoritas, às três da tarde. Um bom livro adaptado para a TV é algo muito agradável. Adoraria ter um livro meu adaptado para a TV.
Prefere cinema ou TV?
Gosto dos dois. Disse uma vez que gostaria de morrer numa sala de cinema, vendo um filme. Luis Bu¤uel é um dos meus cineastas favoritos. Dos contemporâneos, gosto de Arturo Ripstein, Pedro Almodovar. Adoro Woody Allen. Essa última dele (‘‘Deconstructing Harry’’) é uma maravilha, um ensaio feliz.
Que impressões têm do Brasil?
Gosto muito das cidades que conheci. Brasília é um esforço importantíssimo. Dá vontade de colaborar, ajudar na criação e na formação da cidade. É uma aventura, que necessita muita coragem. Meu escritor brasileiro preferido é Jorge Amado. Me disseram que está doente, e isso me deixou muito triste.
O único escritor de língua portuguesa citado em suas memórias é Eça de Queiroz. Por quê?
Adoro. Me dá vontade de escrever quando o leio. ‘‘A Cidade e a Serra’’ é uma maravilha. Que felicidade. Lia em português, mas agora me descuidei.
O sr. afirmou que gostaria de ter sido o herói que não foi durante o regime militar (1976-83).
Tinha de ser mais valente do que fui, fazer oposição. Não aceitei as idéias deles, mas acho que isso foi pouco. A verdade é que eu não sou político.
Como viu a recente prisão do ex-general Jorge Rafael Videla (presidente de 1976 a 81)?
Essa história dos bebês sequestrados, tirados das mães, é terrível. Parece literatura fantástica. Foram uns tiranos horríveis. Não tínhamos noção de quanto.
Como vê o momento político atual?
O futuro é difícil. Quando Menem foi eleito senti como uma catástrofe. Agora, acho que ele foi bastante bem. O país saiu da desordem de antes. Não tenho meu voto definido para o ano que vem.
O sr., apesar da fama de conquistador, de ter sucesso com as mulheres, relata nas memórias que suas primeiras paixões não tiveram êxito. Como se recuperou?
Descobri nesses momentos que a única coisa que queria era não sofrer. Para isso, precisava apaixonar as mulheres e não me apaixonar por elas. Depois, com o tempo, percebi que as coisas eram mais difíceis. Sem se apaixonar um pouco, ao menos, a vida ficava muito triste. Tinha de buscar amores, mesmo que não fossem eternos, e sim circunstanciais.
Um psicanalista classificou o sr. como a pessoa mais normal que ele havia conhecido. Qual o segredo desse equilíbrio?
Está ao alcance da mão. As pessoas vivem para dominar, para mandar. Tem de deixar seguir um pouco. Em minhas memórias, narrei fatos cotidianos. Isso é o importante na vida.
O que é mais difícil no processo de criação de um livro?
Começar a escrever o livro é o mais difícil de tudo. A primeira página é sempre sofrida. Passar de um parágrafo a outro de modo natural, deixando fluir, é muito difícil. Quando aprendo a escrever o livro, não preciso de demasiado esforço para seguir.
Por que o sr. é um crítico da universidade?
Não acredito no ensino coletivo. Fiz Direito por três anos. Era um esforço muito grande para algo que eu não desejava praticar. Passei para Filosofia e Letras e me senti mais longe da filosofia e das letras do que nunca. Parecia uma instituição para formar professores. Então, fui para a casa de campo de meus pais. Lá, fiz minha educação. Li tudo que podia de literatura e filosofia, de todas as partes. Essa etapa durou dez anos. Tinha 19 anos quando fui. Essa é minha cultura. Nessa época, tive a idéia de ‘‘À Invenção de Morel’’.
O sr. defende a literatura acessível. Acha que ‘‘À Invenção...’’ se enquadra nessa visão?
O livro busca o acessível, é claro e simples. Mas tenho encontrado gente com dificuldade para lê-lo. Depois, em ‘‘O Sonho dos Heróis’’, tentei ser mais claro, estabelecer na prosa uma amizade com o leitor. A busca do acessível está marcada na evolução de minha obra. Mas não posso ler um livro meu com tranquilidade. Sempre encontro defeitos.DivulgaçãoAdolfo Bioy Casares em comemoração antecipada de seu aniversário em Buenos Aires: ele agora escreve sobre Borges de quem foi amigo e parceiro literárioAugusto Gazir
Agência Folha

mockup