Com boas surpresas e decepções, festival se despede
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O novo é um gênio de alma inquieta, mas profundamente introvertida, se revelando apenas aos que acreditam que a utopia hoje pode ser carne e osso amanhã. No Festival Internacional de Londrina (FILO), a utopia se tornou palpável ao longo de uma trajetória de quase 40 anos, através de nomes como Eugenio Barba, do Odin Teatret, e do mestre do butoh Kazuo Ono, que entraram para a história do mais antigo evento teatral da América Latina.
Apesar das intempéries, como a ausência da verba da estadual - até o fechamento desta edição o governo não tinha repassado os R$ 350 mil, preferindo o silêncio, que somente não comprometeu a realização do Cabaré porque a organização já está escolada em dar um jeito para que a parte musical aconteça - o FILO não é pele e osso, mas um corpo robusto, que muitas companhias desejam abraçar, através da participação.
O festival 2007 baixa as cortinas, garantindo alguns bons momentos em que a utopia do teatro mais uma vez deixou o corpo à mostra. Houve quem reclamasse de alguns atrasos na programação, entre os quais, o da estréia de ''El Solitario de Pessoa'', da companhia mexicana Miranda, que subiu ao palco do Circo Funcart, cerca de 40 minutos depois do horário marcado.
A culpa foi da mesa de som do grupo que resolveu desprogramar. Essa revolução das máquinas - uma urucubaca das estréias - também tomou de assalto os ingleses do grupo Pickled Image e o teatro de bonecos ''Houdini's Suitcase'' na terça-feira.
O público que esperava no Zaqueu de Melo ficou com água na boca e dor nas pernas de tanto esperar durante 1h30 pela abertura da sala de apresentação, correndo o risco de ser atingido pela saraivada das pombas empoleiradas nas árvores em frente ao teatro.
Mais uma vez, a mesa de som não resolveu colaborar e a sessão acabou suspensa, sendo transferida para quarta-feira, às 21 horas, e quinta-feira às 17 horas. Nos dois casos, o problema ocorreu com equipamentos das próprias companhias, mas em ''La Memoire de la Nuit'', do suíço Philipp Boe, o atraso foi por causa de equipamentos de luz do Zaqueu de Melo, que não funcionou na hora ''H'' .
Incidentes que fogem das coxias, tropeçam na paciência dos espectadores e caem na necessidade de construção de um teatro municipal. O FILO cresceu, assim como o Festival de Música de Londrina e, no futuro, o Festival de Dança também vai ser mais que carne e osso, oxalá.
Não é possível mais ficar contando com a busca de espaços alternativos, torcendo para que tudo dê certo e que as montagens consigam se adaptar aos espaços londrinenses.
O festival chegou ao fim e, como sempre, os espectadores tiveram algumas surpresas e decepções com a grade de programação, que para a abertura escolheu ''La Mirada del Avestruz'', da companhia colombiana L'Explose Danza Contemporanea.
Para abrir o festival, evento que também é um grande formador de público, a peça não foi a dos sonhos de muita gente, que deixou a sala de apresentação, antes do final da encenação.
''Decalque'', do Ballet de Londrina, e ''Ketzal'', dos russos do Derevo, estão em lados diferentes da criação mas, no FILO, o mesmo espaço do Ouro Verde foi ocupado pelas duas coreografias que saíram da sala de apresentação direto para algum lugar escondido em nós, despertado pelos movimentos.
''Ketzal'' não fala russo porque tem uma linguagem universal, sendo visto por espectadores de diversas partes do mundo e que, mesmo com culturas diferentes, estão unidos pela ancestralidade.
Teatro jovem, mas de uma vitalidade indiscutível, apesar de na segunda apresentação os atores estarem com pouca energia, ''Amores Surdos'', do grupo mineiro Espanca! correspondeu às espectativas.
O texto brilhante de Grace Passô diz que a dramaturgia brasileira respira com os ares das Minas Gerais, como também através de dramaturgos e diretores como os londrinenses Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, que deixaram os atores do Galpão, na peça ''Pequenos Milagres'', bem acompanhados por uma iluminação e cenografia afinadas com um trabalho reconhecido no Armazém Companhia de Teatro.
Luiz Valcazaras também arrastou gente que até foi para a porta do teatro camelar ingressos para ''Abre as Asas Sobre Nós''. Com um jeito Tarantino de contar uma boa história, inspirada num conto de Drauzio Varella, Valcazaras justificou, a adaptação de Sérgio Roveri, premiada com o Shell de Melhor Texto. Não merecia menos do que isso porque o que assistimos foi capaz de nos deixar com a respiração presa durante 1 hora de duração da peça.
Pequenos milagres também aconteceram na grade infantil do FILO com''Hans, o Faz Tudo'', ''Os Diferentes'', entre outros espetáculos, consolidando uma programação que valoriza o gênero, que carece de novos autores e grupos que se dediquem a fazer teatro para criança.
Ao contrário das últimas edições do festival, a rua foi um dos principais palcos do evento. O capricho na escolha dos grupos garantiu bons momentos, que podem ser traduzidos nos quatro minutos de duração das encenações de ''Circo Minimal'', da Companhia Gente Falante, de Porto Alegre (RS).
O público que deu um show de entusiasmo em apresentações, como o do grupo de Teatro Armatrux e a peça ''Armatrux, a Banda'', protagonizou uma situação constrangedora.
Caso isolado, a interrupção da encenação ''Le Polichineur de Tiroirs'', dos belgas da Cie des Chemins de Terre, na feira da Avenida Saul Elkind, pode encontrar alento no romancista e poeta francês Victor Hugo, que disse que não há nada como o sonho para criar o futuro - inclusive do FILO.


