São Paulo, 04 (AE) - Parece apenas uma crônica amorosa moderna. Mas o diretor Neil LaBute (o mesmo de Na Companhia de Homens) prefere ver "Seus Amigos, Seus Vizinhos", que estréia amanhã (05), como um instrumento para viajar para onde todos desejam ir, mas não podem: a intimidade dos outros. A frase é boa, mas dificilmente encontra correspondente na realidade, ou seja, no filme em si mesmo. A historinha é a de três amigos, Barry (Aaron Eckhart), Cary (Jason Patric) e Jerry (Ben Stiller) e três moças, Mary (Amy Brenneman), Cheri (Nastassja Kinski) e Terri (Catherine Keener). A trama se desenvolve com uma troca de posição entre as peças em jogo - usa-se o termo "peça" porque as relações são assim mesmo, de objetos entre si.
Um canta a mulher do outro, durante um jantar; uma das mulheres "traídas" resolve se consolar com alguém do mesmo sexo, que conheceu numa galeria de arte; o garanhão da turma acaba confessando que sua melhor transa foi homossexual, mas termina por ficar com uma das abandonadas do grupo. Enfim, amigos e amigas consolidam essa espécie de ecossistema erótico, fechado, vicioso e um pouco perverso, no qual a promiscuidade não é entendida como tal. Enfim, nada que não tenha sido praticado, de forma corriqueira, durante os anos 60 e 70, apenas para ficar no passado mais vizinho.
Mas, enfim, cada geração está mesmo condenada a reinventar a roda e achar-se original. No fundo, LaBute parece consciente disso, quando abre o filme com um trecho de Shakespere. Um dos seus personagens, ator, conclui, seguindo o bardo, que tudo, na vida, não é senão... sexo. Bem, a palavra não é exatamente essa, mas às vezes os costumes, na Inglaterra elizabetana, parecem estranhamente mais livres que no limiar do século 21. Os amigos e amigas são pessoas modernas, com o perdão do termo, sofisticadas, 30 e poucos anos talvez - quer dizer, adolescentes, segundo os padrões atuais. Tudo neles transpira imaturidade e talvez, por aí, se encontre o que o filme tem de mais atraente, em termos de retrato de geração.
Cada um dos personagens é um modelo acabado de imaturidade. Esse traço, claro, permeia todas as relações que se estabelecem. A sensação de quem olha por esse buraco de fechadura (para usar a metáfora do diretor) é a da mais absoluta vacuidade. Todos vivem na mais afluente das sociedades, mas não sabem bem para que, uma ausência de sentido que talvez não seja privilégio deles. Mas, neles, tudo sobressai porque arquivam a tese simplista segundo a qual quando a parte material está resolvida, o resto se arranja.
Woody Allen - Esse mal-estar contemporâneo, e tão nova-iorquino, é também tema de, sem exceção, todos os filmes de Woody Allen. A diferença, ou uma das diferenças mais visíveis entre ele e LaBute, é o senso de humor, que sobra a um e falta a outro. Woody não se leva a sério, ou pelo menos finge isso muito bem, o que em poesia ou cinema é fundamental. O cineasta também é um fingidor. LaBute é sério. Verdade: seu cinema exibe apenas um sorriso de canto de boca. Malévolo, às vezes. Amargo, na maior parte do tempo. Esse egocentrismo, que é também um traço teen, impede que seus filmes sejam leves, mais livres - e portanto melhores.
Mas não falta certa graça a este "Seus Amigos, Seus Vizinhos". Que não seja por outro motivo, porque toca (de leve) no problema fundamental: a incomunicabilidade entre as pessoas. LaBute poderia se aprofundar nesse filão. No entanto, não é fácil ser um Antonioni contemporâneo. Falta tutano. E, claro, falta cultura.

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