Com as rédeas na mão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de novembro de 2010
Arcângela Mota<BR> TV Press 
Interpretar o corajoso domador de cavalos Solano, de ''Araguaia'', é uma tarefa nitidamente confortável para Murilo Rosa. E foi da infância passada nas fazendas do pai, no Centro-Oeste do Brasil, que o ator nascido e criado em Brasília tirou a confiança para viver o protagonista da atual novela das seis da Globo.
Habituado à rotina do campo e ligado aos animais, Murilo se empolga ao falar sobre as afinidades que tem com o personagem, um adestrador experiente que se divide entre o amor da bondosa Manuela, de Milena Toscano, e da madrasta Estela, de Cléo Pires. ''Essa novela é muito simbólica para mim. O Solano é um personagem deslumbrante, daqueles que têm a minha temperatura. É um tipo que gosto de fazer'', derrete-se o ator, que vive o terceiro protagonista de sua carreira.
Na história, Solano é o único sobrevivente de uma maldição indígena que condena todos os homens de sua família a morrer às margens do rio Araguaia. Determinado a desafiar essa sina, ele se muda para a região, onde luta por melhores condições de vida para a população local. ''Existe esse lado galã, mas também tem humor com ironia. É um mocinho com temperamento'', sintetiza.
Sua trajetória na tevê é marcada por personagens bonzinhos. Agora, em ''Araguaia'', você vive um típico herói romântico. Como fazer para não se repetir?
O Solano tem essa coisa politicamente correta, mas acho que ele vem com um humor interessante, um tipo que não é comum nesses heróis românticos e que eu quero representar cada vez mais. Esse é o diferencial. Tenho várias opções de trabalho que não me deixam repetir. Só este ano, estou com quatro lançamentos no cinema com personagens completamente diferentes. Talvez, em uma próxima oportunidade, eu faça um vilão na tevê. Tenho vontade. Meu último foi em ''Chiquinha Gonzaga'', há muito tempo. Mas não existe essa história de que vilão é melhor. Por mim, pode ser bom caráter, desde que tenha dramaturgia, complexidade. Isso o Solano tem. É o que importa.
Além desse lado romântico e divertido, seu personagem vai conduzir a trama política da novela. Como é trabalhar com o tema?
''Araguaia'' é uma novela das seis que tem humor, leveza, mas também tem coisa séria. O Solano tem ideais que servem como pano de fundo da história. Ele vai reencarnar o espírito do avô e falar sobre a guerrilha. Um tema sério que deveria ser debatido hoje em dia. O Araguaia é um universo ainda desconhecido e acho impressionante poder fazer uma novela mostrando isso. É uma revelação para o público, assim como foi ''Pantanal'' e quando começaram a falar da Amazônia.
O que você acha dessa referência que a novela tem em ''Pantanal''?
É até uma coisa bacana porque, assim, ganhou ares épicos. A novela traz um pouco do Brasil, essa força do interior que hoje é o que domina o país. O Brasil de agora é o interior, já foi o litoral. São dois mil quilômetros de rio e ainda não é todo mundo que conhece. Acho que esse título, ''Araguaia'', é um gol de placa. Você já lembra de ''Pantanal'', ''Amazônia''. Tem diferença para mim.
Você é nascido em Brasília e sua família é da região Centro-Oeste. Que diferença isso fez na composição?
Eu já conhecia o rio Araguaia. Não foi uma novidade tão grande para mim como foi para o resto do elenco. Mas também fiquei 40 dias viajando com a equipe e pesquisei bastante. O tempo que passamos gravando na região foi realmente um momento de felicidade. Essa novela é muito simbólica para mim. Sou apaixonado por animais e meu pai é criador de cavalos. A diversão dele é ver o Canal Rural no sábado à noite, quando todo mundo quer sair. Inclusive, fiz laboratório no Haras com um domador. Fui muito para fazenda quando criança e andava bastante a cavalo. Só que eu era conhecido como o doidinho, montava na chuva, era meio maluco. Completamente diferente do Solano, que trata os animais com muito carinho.
Mas você já tinha uma ligação com animais de outros trabalhos na tevê...
Sim, temos uma história antiga. Desde ''Xica da Silva'', na Manchete, eu andava a cavalo para caramba. Em ''Mandacaru'', ''A Padroeira'' e ''A Casa das Sete Mulheres'', a mesma coisa. Depois fiz um peão, que foi o Dinho de ''América''. Brinco que o Solano é uma mistura do Corte Real, de ''A Casa das Sete Mulheres'', com o Dinho. É um peão, um domador, mas tem esse temperamento gaúcho, de homem que sai pelo mundo desbravando as coisas com muito humor.
Foi necessário aprender mais alguma coisa por conta do Solano?
Sou conhecido na peãozada como um bom cavaleiro, mas um pouco ousado, do tipo que o cavalo cai e eu não. Esse personagem é o contrário disso. É um encantador que usa a doma racional, inteligente, e não a bruta. Li o livro ''O Homem que Ouve Cavalos'', do Monty Roberts, um domador americano muito famoso. Ele defende que violência não é resposta. A mensagem que quero passar é essa. A maioria das pessoas no Brasil usa a doma bruta. A gente está em um momento tão bonito, meio ambiente, ecologia, proteção dos animais, que acho que a novela vai falar disso também.
Depois de 16 anos de tevê, o que mais te atraiu no Solano?
Esse é o tipo de novela em que dou um bom exemplo com meu personagem. Adoro que o meu filho assista, mesmo com apenas três anos de idade. Tem personagem que a gente pode entender como uma lição de vida. O Solano me dá aula. É um cara com temperamento e acho que precisamos disso. Me identifico com muitas coisas nele: o vigor, a vontade de que as coisas aconteçam e o fato de dormir pouco e fazer muito. É claro que, dentro dessa força toda, também há uma carência por não ter conhecido a mãe e por ter um pai ausente, que toda vez que o encontrava só pedia dinheiro emprestado. Tudo isso deixa ainda mais interessante.


