Com a pura intenção de chocar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de março de 1998
Guto Barra Planet Pop/AE Nova York 
Um dos mais controversos nomes do pop atual acaba de pegar carona na onda de biografias dispensáveis que toma conta do mercado norte-americano. Marilyn Manson, o roqueiro que gerou polêmica por celebrar o satanismo com seu disco Antichrist Superstar, está lançando sua biografia, The Long Hard Road Out of Hell. O livro aproveita o clima de mistério que cerca a escalada do músico para o sucesso para revelar detalhes de sua carreira. O resultado é uma compilação de opiniões dele sobre temas como a Igreja Católica, a estrutura do pop e a vida nos Estados Unidos, que deve interessar mais aos fãs adolescentes.
O livro conta a história de Manson, cujo nome verdadeiro é Brian Warner, desde que ele estudava em uma escola católica no interior dos Estados Unidos. Garoto-problema, ele passou a questionar a existência de Deus e logo cedo passou a se interessar por satanismo e magia negra. É difícil não assumir que Manson procurou o maior número de detalhes de seu passado para justificar sua transformação no temido astro que ficou famoso. Logo no início da história, ele conta suas experiências observando o porão onde o avô guardava os acessórios sexuais que usava quando se vestia de mulher. Mais adiante, vem seu envolvimento com o sado-masoquismo, um vizinho abusivo e sessões espíritas.
Tudo no universo de Manson parece girar em torno da vontade de chocar. Os títulos de cada capítulo parecem piada: Quando eu era um verme, Eu não nasci com dedos do meio suficientes e assim por diante. Os créditos de The Long Hard Road Out of Hell dizem que ele tem 450 cicatrizes, não contando as emocionais, enquanto o co-autor do livro, Neil Strauss, jornalista que escreve para a revista Rolling Stone e para o jornal New York Times, tem apenas uma cicatriz, provocada por Manson. Brrrrr....
Mas fora o desejo de assustar seu público e incomodar mais um pouco a odiada (por ele) América branca, o livro é interessante ao mostrar a evolução do artista desde o início de seu envolvimento com o pop. Ele começou escrevendo para uma revista de música chamada 25th Parallel, onde entrevistou nomes como Deborah Harry e Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que mais tarde virou o produtor de Antichrist Superstar. Do jornalismo para a poesia falada em um clube de Fort Lauderdale, na Flórida, foi um pulo. Uma vez nos palcos, Manson não parou mais, sempre se prendendo aos temas ligados ao satanismo.
Entre as curiosidades: ele passou a se chamar Marilyn Manson apenas para poder escrever na revista sobre sua própria banda, assinando como Brian Warner. Seu interesse por Charles Manson começou quando ele comprou o disco Lie, que o psicopata gravou na prisão. A idéia de regravar Sweet Dreams, do Eurythmics, em uma versão mais lenta e com a voz distorcida, surgiu durante uma viagem de ácido.
Sobre o uso de drogas, Manson diz não fazer segredo. São as pessoas que abusam das drogas que fazem com que elas pareçam ruins, diz. Tenho pena das pessoas que são viciadas. Já sobre o homossexualismo, ele também não faz segredo. Já fiz sexo oral com muitos homens, o que é uma coisa que muitos heterossexuais não admitem, mas do mesmo jeito que beijar uma garota não faz com que ela engravide, não acho que isso me faça ser gay, diz. De acordo com ele, se você comprou um disco dos Smiths, aí sim você é gay.
Por fim, o livro esquenta ao apresentar os detalhes da cruzada de entidades conservadoras contra as apresentações da banda por várias cidades norte- americanas no ano passado. Há a cópia de um documento de denúncia falso distribuído pela American Family Association, em que uma pessoa diz ter presenciado um show do grupo com cenas de bestialismo e uso constante de drogas. No diário da turnê, há ainda a reprodução de uma oração distribuída por um grupo protestante na frente de um show de Orlando, na Flórida, e a carta do prefeito de Mississippi Coast pedindo o cancelamento da apresentação.


