Reprodução/Gravura em metal de Edith BehringOs dois livros foram lançados no mesmo ano: ‘‘Lavoura Arcaica’’, de Raduan Nassar no Brasil e ‘‘Cerco de Penumbras’’, de Oscar Cerruto na Bolívia. Foi em 1975 e chegamos quase ao fim do milênio e estes dois notáveis escritores permanecem na história da literatura mundial como ícones da mais requintada arte de escrever e, até certo ponto, pouco conhecidos pela massa compradora de livros.
Pertencem à linhagem de Ernesto Sábado, o argentino que plantou suas raízes em três livros apenas (refiro-me aos de ficção e não a ‘‘Nunca Más’’) e todos estão colocados ao lado dos que escreveram porque tinham o que dizer e jamais pensaram se podiam vender. São estetas e não comerciantes da palavra. Cerruto, antes de ‘‘Cerco de Penumbras’’, consagrou-se com ‘‘Aluvión de Fuego’’, e Raduan Nassar reafirmou-se com ‘‘Um Copo de Cólera’’. Vinte anos depois reaparece com ‘‘Menina a Caminho’’ (contos).
‘‘Lavoura Arcaica’’, de Raduan Nassar, em terceira edição pela Companhia das Letras mostra-nos um notável narrador. Claro, nunca foi campeão de vendas, mas merecia estar lá desde 1975 até hoje sem interrupções. Impossível o leitor não sentir a grandeza da herança árabe, cheia daqueles bordados arquitetônicos que fizeram a glória de Granada e a imortabilidade do mosteiro de Batalha, em Portugal. É um livro que requer concentração, sensibilidade poética, profunda filosofia, humildade e respeito, amor pelo belo e requintado sem rebuscamentos nem palavras complexas. É também uma catedral que exige silêncio absoluto. Na contracapa não se fala em traduções. Ele só é conhecido em língua portuguesa? Mais sorte, então teve Cerruto; sem tradução ao português faz parte da ‘‘Antologia Universal del Cuentos Estra¤o’’ e circulou pela América Hispânica na edição da ‘‘Jornalivros’’, da Unesco, publicada no Brasil pelo O Globo.
‘‘Lavoura Arcaica’’, de Raduan Nassar foi considerado por Alceu Amoroso Lima ‘‘livro impressionante, magistral’’. Autêntica tragédia grega que explode de repente nas páginas finais, imprevisíveis, fustigantes, aterrorizantes. É para se ler e marcar cada frase, pensamento e se perguntar: Nassar esgotou sua maravilhosa fonte? Impossível. E me pergunto: alguém dominou a novela brasileira com tal ritmo e maestria? Algum outro poeta se transformou em narrador e fez de sua riquíssima prosa um manancial de puríssimas harmonias? André, o narrador, é personagem inolvidável como Ana, a irmã, o pai de pensamentos radicais, a mãe bíblica. No capítulo 3, a descrição do olhar mexe inteira com a consciência do leitor. A surpreendente história do mendigo diante de Deus e a versão do conturbado André são riso e pranto. Ao fim de ‘‘Lavoura Arcaica’’ quero entender por que alguns escritores chegam ao topo do mundo literário descendo de helicóptero. Não é que lhes falte coragem para escalar; é que nasceram no topo e, talvez, seguir escrevendo, seria descer e ser preso por uma avalanche de medíocre literatura, só para explorar a fama e encher os bolsos. Não, não. Oscar Cerruto e Raduan Nassar estão lá, no pico do Everest o árabe, no pico do Aconcágua o boliviano, içados pelos deuses. Estes há dez anos dormindo nas cordilheiras emocionais e o brasileiro, em plena juventude, ainda plantando uma nova bandeira no cimo de sua pátria literária com ‘‘Menina a Caminho’’. Preciso conhecer os ascendentes e descendentes desses notáveis escritores para me levantar do chão onde estou de joelhos. Na mão direita carrego ‘‘Cerco de Penumbras’’ e na esquerda ‘‘Lavoura Arcaica’’. São meu vinho e meu pão. Quem poderá me reerguer com a magia de Oscar Cerruto e Raduan Nassar? Quem?

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