Carlos Heitor Cony, um dos mais renomados escritores e jornalistas da atualidade esteve na última sexta-feira em Curitiba para um Salão de Idéias promovido no Parque Barigui pela Expolivro 2000. No encontro realizado com seus leitores, Cony falou sobre o futuro do livro. Horas antes recebeu a Folha2 no Hotel Bourbon, onde estava hospedado.
Cony é hoje um ícone do jornalismo e da literatura brasileira. Autor de livros como ‘‘Informação ao Crucificado’’, de 1961, ‘‘Pessach’’, ‘‘Pilatos’’ e ‘‘Quase Memória’’, entre outros, Cony é letrado, como diriam os antigos. Na verdade ele é mais que isso, é um homem que, apesar de maduro, está cada vez mais moderno.
Atualmente defende a informática como forma de estimular o imaginário das pessoas e de fazer com que a busca pela palavra se torne imprescindível. Assim como houve a evolução desde a pré-história, quando o homem começou sua escrita em tijolos e madeira, passou pelos papiros, pergaminhos até chegar a invenção de Gutenberg, Cony acredita que a Internet e os disquetes, irão substituir os livros. Não agora, daqui há uns 50 anos.
Sobre a Academia Brasileira de Letras, a qual recentecemente foi eleito, o escritor e jornalista deixa claro: ‘‘Foi um desastre na minha vida’’. O que ele considerou um desastre talvez seja o prenúncio de uma nova fase que a Academia vai passar. Porque Cony não tem nada do conservadorismo, do ranço que é peculiar aos seus membros. Como já está lá, aproveita o lado bom que a indicação lhe oferece, participa de eventos, viaja e dá palestras como um dos homens que são ‘‘imortais’’ na história da literatura brasileira.
Agora está pensando em um novo livro. É ateu, mas vai falar de fé. Inspirado num conto russo, que fala de amor e da descoberta da fé, num período de maturidade, onde já se viveu tudo. A seguir a entrevista que Cony concedeu.
Como é a sua relação com a Internet?
Eu estou entrando no veículo da linguagem virtual. Recebo muitos e-mails e contesto alguma coisa. Não vou dizer que eu tenha caído de quatro pela Internet, adorando um novo deus. Não é nada disso. Mas aceito como um grande veículo de comunicação. A Internet está facilitando a vida de tanta gente. Gente que não escrevia, gerações e gerações que tinham um vocabulário pobre falando só ‘Oi, Legal, tô nessa’. De repente, este povo que não se articula bem, chega no computador e sente a necessidade de se comunicar, de dividir as emoções. E aí, um começa a corrigir o outro: ‘céu não se escreve com cedilha, entendeu?’ Aí o camarada vai começar a descobrir como é que se escreve certo.
O pessoal está aprendendo a escrever?
Exatamente. Um mundo de pessoas começa a ter vontade de se expressar e se expressar através de que? Da letra. Da linguagem. Então, nunca se escreveu tanto. Uma geração que tinha pavor da escrita, porque associava ao colégio, ao dever escolar... Narre um filme que você viu, o que você fez nas férias? O pessoal tinha ódio disso. E agora estão procurando a escrita por deleite. Depois de esgotar todas as brincadeirinhas, começam a se expressar, a se comunicar. E começam a entrar na frase. Em termos de salvação da linguagem literária, a linguagem virtual está criando uma riqueza muito grande. Ampliou muito o nosso universo.
Você acredita que o livro vai sumir, vai virar virtual?
Acho que ele está realmente com os dias contados. Porque é um produto industrial caro, envolve papel, tinta, distribuição, espaço, enfim, um monte de coisas. Agora, o livro não foi sempre assim. Se vê que o homem começou a escrever na época das cavernas. O primeiro papel que o homem teve foi raspando com um estilete na caverna através de um símbolo para dizer: ‘vou ali e volto já’, ‘eu te amo’, ou outra coisa qualquer. Depois veio a pedra, o papiro, usados pelos judeus nas sinagogas. Depois é que veio o livro de papel na invenção de Gutenberg. O livro é caro e se deteriora. A linguagem virtual pode abolir o livro, na medida em que a técnica vai conceber uma tela de computador com uma espessura quase igual a do papel. Isto já existe em alguns computadores. Mas o dia em que chegar a esta adequação, não será impossível você ter o livro que você quiser com um disquete ou pela Internet. O grande problema da leitura virtual ainda é o manuseio; eu leio na banheira.
E a relação física com o livro, como vai ficar?
A minha geração gosta de sentir o livro, de chorar e ver a marca no papel. Mexer e de repente achar uma página marcada com um nome. Eu estava, há pouco tempo, mexendo num livro e achei numa página escrito Denise. Alguma Denise escreveu isso lá. E eu fiquei pensando quem seria? Depois de algum tempo, veio a Denise inteira. Uma folha, uma pétala de flor, o livro tem esse lado sentimental, afetivo que, evidentemente, vai demorar várias gerações para a gente se desapegar e torná-lo descartável. O livro material, eu acho que, mais 50 anos e ele será descartado.
O que você achou da imprensa na divulgação do caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo também jornalista Pimenta Neves?
No primeiro momento, a imprensa tentou abafar, minimizar, mas depois não houve jeito, o bom senso prevaleceu. Pelo que eu sei esse rapaz não era muito estimado, era um bom profissional, mas não tinha porque ser protegido. Ele foi profundamente calhorda, perseguiu a menina, demitiu e premeditou. Foi muito sórdido, mesquinho, não é humano. A imprensa hoje não pode mais ser acusada de corporativismo. Agora, nos primeiros dias, notou-se tranquilamente uma tentativa de abafar o caso.
E o Cony acredita na paixão?
Acredito na paixão, não no amor. Porque o amor é meio vago, você pode amar um animal, o pai, a mãe. Nélson Rodrigues dizia, ao meu entender erradamente, que amor que acaba não foi amor. Eu acho que amor não é isso, a paixão sim, a finalidade dela é acabar. Tem aquele topo, aquele fogo, aquele calor muito grande e aí queima até virar cinza. Este ciclo é que eu acho existe.
E a Academia Brasileira de Letras?
Isso foi um acidente na minha vida. Eu nunca pensei em ir para lá. Apesar de ter muitos amigos, eu não tenho a ver com aquele ranço. Mas houve uma situação, de uma briga interna na Academia e eu fora dela, tomei um partido. Já que eles são muito convencionais e não podiam brigar, eu acabei abraçando a causa. Eles não queriam a candidatura do Roberto Campos, que ele ficasse no lugar do Dias Gomes. Eu, se fosse da Academia não teria votado nele, mas não é justo – lá existem membros que eram tão ruins ou piores que o Roberto Campos. E o Dias Gomes foi para lá porque aceitou as regras do jogo. Enfim, eu acabei sendo convidado e não queria, não fiz campanha. Mas tive 25 votos. Mas acho um pouco mórbido, como só existem 40 vagas, fica todo mundo agourando, esperando que alguém morra para sobrar uma vaga. Pessoalmente, eu não estou nessa daí não. Vou lá, faço umas palestras... Estive recentemente em Paris para a entrega o prêmio da latinidade na Academia Francesa para um italiano. Quer dizer, até agora só estou tendo o lado bom.
E quais são os seus projetos?
Na minha idade o cara não devia ter mais projetos. Mas eu tenho sim, parei no meio de uma biografia sobre José Lins do Rego e tenho um romance também parado, porque tive que fazer um outro romance a pedido da editora. Mas estou muito motivado a fazer um novo romance. Não sei exatamente sobre o quê.
Estou pensando muito em homem que perdeu a fé e leva tanto na cabeça que sente uma tremenda nostalgia. Como um conto russo que eu li, há muitos anos, onde um homem amava a esposa, era muito dedicado e ela o traía o tempo todo. Aí, um dia ele fica doente e ela descobre que ele era o grande amor da vida dela, mas já não há mais tempo. Se você tranpõe isso para fé, passa a vida toda desprezando a fé, como eu, que sou um ateu declarado e de repente descobre que você está errado, que você não fez outra coisa a não ser amar essa transcendência, não a Deus exatamente. É por aí que eu estou pensando em escrever meu livro.
E o Cony fica sem inspiração?
Não sei extamente os outros escritores, mas você está sempre antenado, nas coisas mínimas como fazer uma viagem, passar por uma depressão, uma exaltação grande. Então isso tudo fica transbordando. A obra de arte não é um cano, o artista é como uma concha, ele primeiro enche, depois transborda. Esse transbordamento é que é a arte. Você não pode esvaziar a concha. E eu estou cheio, posso dizer isso. Se eu tivesse tempo eu poderia fazer um livro por ano, por dia se fosse o caso. Assuntos não faltam.

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