São Paulo - As primeiras imagens foram rodadas em 1992, quando Ariano Suassuna deu a aula inaugural da Universidade Federal da Paraíba: as palavras do escritor foram registradas pelo cineasta Marcus Vilar. ‘‘Eu já era fascinado pela sua obra e decidi que era necessário realizar um documentário sobre sua vida’’, comenta o diretor, que rodou as últimas cenas dez anos depois, durante o carnaval deste ano em que Suassuna foi homenageado pela escola de samba Império Serrano.
O resultado são 18 horas de material gravado, que deverão ser enxugadas para 1h10, no máximo 1h20. O filme, que tem o título provisório de ‘‘O Homem do Castelo’’, terá uma particularidade: não há depoimentos de terceiros sobre a obra de Suassuna, apenas sua palavra na reconstituição e reflexão a respeito de sua vida. ‘‘Ariano é um homem com idéias controversas, que são muitas vezes incompreendidas por algumas pessoas. Assim, decidi que apenas ele defenderia seus pensamentos.’’
Vilar, autor do premiado curta ‘‘A Canga’’, pretende iniciar o documentário com uma cena em que o autor aparece em seu sítio, escrevendo à máquina. ‘‘É como se ele estivesse escrevendo a própria história’’, explica o cineasta que, ao relembrar fatos marcantes da vida de Suassuna, conseguiu arrancar-lhe algumas lágrimas. Como quando retomam o assassinato do pai, João Suassuana, em 1930, então deputado federal. O escritor tinha apenas 3 anos e o trágico desaparecimento do pai ainda o emociona.
Mesmo com gravações em períodos irregulares, o diretor conseguiu captar imagens preciosas. Como o encontro de Suassuna com o cantor Chico Science, que morreu em 1997, aos 30 anos. Encantado por estar em sua presença, o músico declarou-se como um artista armorial, referindo-se ao movimento criado por Ariano na década de 70, que fertilizava a música regional com elementos refinados e universais.
‘‘Se você é armorial, então por que usa Science, um nome estrangeiro?’’, questiona o escritor. ‘‘Deveria então se chamar Chico Ciência.’’ O encontro serve como motivo para Suassuna defender uma de suas mais ferrenhas teses, a preservação da língua portuguesa. Para finalizar o documentário, o cineasta necessita ainda de R$ 150 mil, que serão utilzados na edição e na transformação do material filmado em vídeo para a película. Contando com uma série de apoios (como as ONGs Para’iwa e TV Viva, além da Universidade Federal da Paraíba, da produtora Convídeo e do produtor Durval Leal), Marcus Vilar pretende desmistificar a figura de Ariano Suassuna. ‘‘Ele é vital para cultura brasileira.’’

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