Com a palavra, Manoel de Oliveira
Pouca gente gostou, o que é sintomático e perigoso. Gostar de Palavra e Utopia, exibido anteontem no Festival de Veneza, é celebrar profissão de fé no futuro do livro em seu formato clássico, capa dura ou brochura, na sobrevivência da palavra escrita. Não se trata de renegar a revolução da informática, ou de achar que o CD-ROM é o diabo redivivo. Manoel de Oliveira, que confessadamente realizou o filme da vida dele, faz literalmente um rasgado discurso em defesa do verbo, sobe ao púlpito do barroco setecentista e descortina o maravilhoso gênio criador de um dos grandes espíritos luso-brasileiros, o prolíxo e libertário Padre Antonio Vieira.
Oliveira não deve se incomodar nem um pouco com as críticas de quem acha seu cinema amarrado na camisa de força do formalismo acadêmico, dos planos-sequência que privilegiam o texto. Sem dar a mínima, e do alto de suas nove décadas de vasta experiência cultural acumulada, partiu para dar sua visão humanista desse exuberante autor de extensa obra composta por sermões e cartas, muitos de ambos e da melhor qualidade literária. É um filme sobre Vieira e seu tempo - o século 17 -, suas andanças entre Portugal e Brasil, seu envolvimento em defesa de índios e escravos e judeus, os atritos com a Inquisição portuguesa. Não é documentário, nem drama histórico ou biográfico, e muito menos hagiográfico - Vieira é celebrado sem ser incensado. Num certo sentido muito especial, é uma ficção que jamais se afasta dos fatos.
E principalmente da autenticidade dos documentos em que se baseia. Vale dizer, os copiosos textos, resultado de muitos anos de prédica em igrejas de Lisboa, da Bahia, do Maranhão, de Belém , de Coimbra e Roma. É impressionante a capacidade de criação de Vieira, tanto em sermões quanto no exercício da epistolografia. Em cima dessas palavras copiosas e preciosas foi que se debruçou Manoel de Oliveira, para dimensionar o homem através da obra.
Na coletiva, em vários momentos tensa pela falta de um serviço de tradução simultânea em português - o que obrigou Manoel de Oliveira a se expressar num francês lento e pouco versátil -, ficou evidente o carinho do cineasta por este projeto, que vinha acalentando há muitos anos. A questão da língua falada pelos três atores que interpretam Vieira foi um dos pontos debatidos. O jovem Ricardo Trepa, o nem tão jovem Luis Miguel Cintra e o mais maduro Lima Duarte conseguem uma síntese do idioma, uma mescla entre o português lusitano e aquele que se fala no Brasil.
Manoel de Oliveira, que disse não ter visto Sermões, o filme de Julio Bressane sobre o personagem, não perdeu de vista o sentido maior de sua obra, a questão da utopia que Vieira perseguiu por toda a vida, usando a palavra como arma mais candente, precisa, rigorosa, justa. Esta a ousadia e a contemporaneidade do filme, acadêmico na superfície, jovialmente revolucionário à medida em que se colhe o resultado de uma produção intelectual a serviço de causas sociais consideradas absolutos tabus para a época.
Um filme para circuitos comerciais reservados, mas com amplas chances de percorrer caminhos paralelos - universidades, círculos acadêmicos. A atuação de Lima Duarte é tão boa quanto a de Cintra, o Vieira da meia idade.
Palavra e Utopia não demonstra padronagem de premiação, mas é cinema com maiúscula.





