Considerado um nome superlativo na pesquisa e crítica teatral no Brasil, o mineiro Sábato Magaldi, 74 anos, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1994. Possui oito livros publicados, alguns imprescindíveis para a compreensão da cultura teatral, como ''Panorama do Teatro Brasileiro'' e ''O Texto no Teatro''. Em 1953 entrou para o grupo Estado, a convite de Alfredo Mesquita, participando do antológico Suplemento Literário e assumiu a função de crítico teatral do Jornal da Tarde, de 1966 até 1988, quando se aposentou. Nesse ano, escreveu sobre 152 espetáculos. Amigo do dramaturgo Nelson Rodrigues, ele foi responsável pela difusão da obra do gênio de suspensórios.
Magaldi ainda escreve críticas em cadernos que vai acumulando, cada um com 400 páginas, formando até agora 45 volumes à espera de uma futura publicação. Sábato planeja lançar uma complementação de ''Cem Anos...'' abordando os últimos 25 anos de teatro na paulicéia. Em entrevista à Folha2 , Sábato Magaldi falou sobre a contribuição do teatro paulistano para o País, relembrou Cacilda Becker e criticou o neoliberalismo. Leia a seguir trechos da entrevista.

Seu livro ''Cem Anos de Teatro em São Paulo'' é um trabalho de antropologia das artes cênicas?
Basicamente, pesquisei no Estadão a fase mais antiga. Eu morava no Rio de Janeiro e já havia visto dois espetáculos importantes do TBC (''Seis Personagens à Procura de Um Autor'' e ''Dama das Camélias''). De 53, depois que retornei da Europa, até 75, foi um período muito rico no teatro em que eu assisti a tudo. Apesar de ser um trabalho de pesquisa no Estadão, tem um período que pude prescindir do jornal.

A arte efêmera do teatro ganha no jornal uma pequena chance de posteridade. Os jornais hoje diminuíram o espaço destinado ao teatro?
O Estadão tinha uma página de arte. Hoje, tem um caderno. Mas não havia tevê e o cinema não tinha tanto espaço. O teatro disputa espaço com outras artes. Mas quando há algo importante no teatro se publica uma página. Eu escrevia diariamente cinco laudas de informação teatral. Não houve perda, mas uma acomodação para outras áreas.

O velho ditado que afirma São Paulo ser a locomotiva do País se aplica também à àrea teatral?
Até a criação do TBC (1948), o teatro em São Paulo era quase todo subsidiário do teatro carioca e das companhias estrangeiras. Com a criação do TBC, com o surgimento do Arena e do Oficina, o teatro de São Paulo ganha mais importância e começa exportar espetáculos para o Rio de Janeiro. Por outro lado, o Rio tinha o Opinião. Os dois estados faziam intercâmbios.

Em muitos aspectos as críticas teatrais de décadas atrás parecem ainda valer. O que mudou no trabalho do crítico?
Não fomos procurar o que a crítica escrevia em outros jornais. Hoje há escolas de curso superior que formam críticos. Em São Paulo, a Mariângela Alves de Lima foi minha aluna. O crítico Alberto Guzik foi aluno de crítica e fez cursos de interpretação. Minha formação veio da literatura. A crítica literária não tinha um aprendizado específico sobre teatro. Assisti a muitas estréias importantes e tive experiência prática dessa maneira.

No livro você destaca alguns momentos importantes para o teatro: a estréia de Vestido de Noiva (1943) e a criação do TBC e da Escola de Arte Dramática (1948). Pode-se afirmar que a partir daí se dá início à identidade do teatro brasileiro?
A Escola de Arte Dramática é um celeiro importante de atores, diretores e críticos. O TBC consolidou profissionalmente com a vinda de vários diretores italianos, como o Adolfo Celi. O único sobrevivente dessa geração é o Gianni Ratto, que está ainda na ativa. Eles trouxeram a base de direção pelos modernos padrões internacionais. Depois apareceu nova geração. O Antunes Filho foi assistente dessa geração e hoje é o diretor mais importante de São Paulo.
Nelson Rodrigues escreveu realmente a peça ''A Estrela do Mar'', em 1951. No livro, esse fato é apenas citado, tendo Nelson obtido o segundo lugar num prêmio instituído pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
Não consegui localizar a peça, perguntei ao filho do Nelson e ele também não sabia. Apenas soube do registro da comissão julgadora que classificou a peça dele em segundo lugar. Não parece ser nenhuma das peças publicadas. O Nelson esquecia que tinha peça, pode ser um lapso ou refugou o texto.

No livro, há um espaço considerável ao trabalho de Cacilda Becker. Depois de 32 anos da morte da atriz (que morreu quando atuava na peça ''Esperando Godot'', de Samuel Beckett), ela ainda é um nome presente nas artes cênicas brasileiras?
A Cacilda Becker foi estrela do TBC. A Cia. Cacilda Becker também era importante. Ela foi presidente da comissão estadual de teatro. De um ano para outro ela multiplicou por quatro a verba para o teatro. Realmente, era respeitada pelos colegas. Cacilda Becker se impôs pelo talento, liderança e como excelente presidente da comissão estadual de teatro.

A capacidade de fênix do teatro de recomeçar é incrível. Resistiu à gripe espanhola, ao surgimento do cinematógrafo, ao aparecimento da tevê, à ditadura militar e econômica. O que impede o crescimento do teatro brasileiro hoje?
Hoje não há política estatal, as Leis de Incentivo atuam como coadjuvantes da cultura. O governo agindo dessa forma abre mão da responsabilidade e passa para a iniciativa privada. Essa ausência do estado é criminosa. É lamentável, o neoliberalismo que tomou conta do País e a ausência de política cultural e artística.

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