COM A PALAVRA, CONY
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sexta-feira, 27 de abril de 2001
Nelson Sato De Londrina 
O escritor Carlos Heitor Cony, 75 anos, esteve em Londrina esta semana. Veio a convite do Colégio Maxi, onde deu palestras para uma platéia restrita: na quinta-feira falou separadamente para professores e pais de alunos, e na sexta conversou com alguns representantes da comunidade intelectual entre eles a secretária de Educação Magda Tuma, a diretora do Festival Internacional de Londrina - Filo Nitis Jacon, a sociológa Maria Lúcia Vitor Barbosa e a promotora Solange Vicentin.
Cony é um dos mais respeitáveis ficcionistas do país. Vem empilhando prêmios desde sua estréia literária, em 1957, com o romance O Ventre. Atualmente, mantém crônicas no jornal Folha de S.Paulo e nas revistas Manchete e República. É dos mais agudos críticos da era FHC. Sua carreira foi marcada por um súbito silêncio literário de 23 anos, que só foi quebrado em 1995 com a publicação do romance Quase Memória. Foi sobre esse intervalo e outros temas que ele falou à Folha na manhã de ontem.
O senhor ficou 23 anos sem escrever depois da publicação do romance Pilatos, em 1974. Conte o que se passou.
Eu estreei na literatura em 1957 aos 32 anos e fiquei dez anos produzindo intensamente. Em uma década, produzi nove romances e cinco ou seis livros de biografias, crônicas e contos. Na época, ganhei prêmios e conquistei uma boa posição nas letras nacionais. Tinha público e uma grande editora por trás. Cheguei a viver de literatura, uma coisa rara entre escritores brasileiros. Nesse ponto, poderia até me considerar uma pessoa realizada em termos de literatura. Mas depois de um período, senti-me esgotado e um pouco descrente da literatura. Comecei a questionar se era aquilo que eu queria fazer. Queria viver mais para mim. Estava com 42 anos. Atravessava uma fase muito feliz com casamento novo, saúde boa e situação econômica estável. E um homem feliz não faz arte. Um homem feliz não tem condições de fazer uma sinfonia, não tem condições de pintar uma capela de Sixtina. O que faz um homem buscar a arte é uma frustração pessoal. Quando ele está feliz, a tendência dele é fruir essa felicidade. E eu achava que se fosse me dedicar à literatura, roubaria esse tempo de felicidade. Preferi, então, não entrar na história como Getúlio Vargas. Mas entrar na vida. E vivi.
E o que o levou a voltar a escrever?
Esse período de felicidade durou dez anos. Depois começou a fazer água. Senti-me incompleto, como quando comecei a escrever. Aí tive que fatalmente voltar à literatura porque ela é o abrigo e a renúncia de todos os frustrados, sejam bem sucedidos ou não na vida literária.
Com o senhor concilia a rotina de escrever diariamente para um jornal e a criação literária? Uma atrapalha ou ajuda a outra?
Há uma tese muito discutida a respeito disso. Pergunta-se até que ponto uma atividade intelectual paralela, como o jornalismo ou o magistério, seria prejudicial à vida literária. Eu acho que não atrapalha, mas também não beneficia. Nós tivemos grandes escritores que foram funcionários públicos. O Guimarães Rosa foi funcionário do Itamaray. O Machado de Assis foi funcionário do Ministério da Aviação. O Carlos Drummond de Andrade foi um burocrata do Ministério da Educação e Cultura. Mas nada os impediu de serem grandes escritores. Na crônica jornalística, ocorreu um fenômeno semelhante. O Euclides da Cunha escreveu originalmente Os Sertões em forma de reportagens. Mais tarde, a obra transformou-se nesse monumento da literatura brasileira.
O senhor considera a crônica um gênero literário?
A crônica é um sub-gênero, está mais ligada ao jornalismo do que à literatura. É circunstancial, um meio de vida. À medida em que você a desenvolve no exercício diário, ela cria uma segunda natureza. Não que se torne fácil de fazer, mas com o tempo ela deixa de ser uma tarefa impossível de ser feita. Outro dia, li uma entrevista do Luís Fernando Veríssimo em que ele dizia exatamente isso: eu não penso na hora de escrever uma crônica. Eu abro o computador e a crônica sai. É a mesma coisa que acontece comigo, só que eu sou bem mais velho que ele e faço isso há mais tempo. Não se pode dizer o mesmo da criação de um romance, de uma poesia, de uma peça de teatro ou de um ensaio. Estes não são circunstanciais: exigem busca, perseguição, são metas a ser alcançadas. Os cronistas não ficam. Os grandes cronistas do passado, o João do Rio, o Humberto de Campos e o próprio Rubem Braga já começam a ficar superados. Por quê? Porque o cronista absorve os fatos do dia. Ele é consumido no período em que escreveu e é esquecido.
Como o senhor vê a função da crítica?
Hoje não há mais crítica, mas resenhas. Conheci poucos críticos de fato, pessoas habilitadas que estudaram a história da literatura. Os que estão em atividade, pararam no tempo. Falam de José de Alencar, Machado de Assis e não tomam conhecimento da literatura contemporânea porque não querem se arriscar. Os críticos de hoje são resenhistas e são nossos colegas. Eu mesmo faço resenha de livro de amigo meu, e outros fazem de meus livros. É uma espécie de compadrio, a favor e contra. De qualquer forma, acho que uma pessoa inteligente deve saber expurgar das críticas aquilo que possa ter de ideológico ou de desavenças pessoais sejam lá por quais motivos forem. Acredito que toda crítica contém um valor positivo, mesmo que seja uma crítica ressentida. De dez restrições que ela traga, pelo menos 5 serão verdadeiras. No começo de minha carreira, procurei me orientar por esse ponto tirando as críticas desabonadoras e que tinham endereço certo seus pontos positivos. Tolstoi e Dostoievski souberam aproveitar as críticas. Outro exemplo típico é a ópera Carmen, de Bizet, a mais representada no mundo. Depois de concluí-la, Bizet a mostrou para o editor e este disse isso aí é uma porcaria, não tem nenhuma canção importante, não tem uma cara. Bizet foi para casa. Já estava desistindo da ópera quando foi convencido pelo editor a incluir uma canção na obra, para dar-lhe uma cara. Bizet fez a canção do toureador que, posteriormente, ficou sendo a marca registrada da ópera. Basta um acorde da canção, para todos reconhecerem Bizet. Isso ele deve à imposição do editor, que agiu como um crítico.


