Bati um papo com as pombas no Calçadão. Disse a elas que assim não dá, que sua vida está por um fio, que andam dizendo que 48 mil serão abatidas por conta da sujeira que fazem. Uma delas respondeu: ''Mas como? Se os seres humanos fossem abatidos pela sua falta de educação, a sua espécie já estaria exterminada.''
Respondi: ''Não adianta Dona Pomba, sem chances. Quem pode mais chora menos, não foi por falta de aviso que a situação chegou a este ponto. Vocês comem nas lavouras o dia inteiro, se refestelam, à noite vêm para Londrina e quando chegam às praças as pessoas nem dizem 'pomba!' Dizem: 'Bomba! Bomba!' e saem correndo à procura de abrigo.''
Ela retrucou: ''Se matarem 48 mil pombos de uma vez, perderemos gerações de filhotes e aves da Terceira Idade. Os ninhos ficarão vazios, vocês perderão a graça de ver nossas caras enfiadas nos semáforos, como um retrato instantâneo, quando passam naqueles carros fedendo à gasolina.''
Disse a ela que os argumentos eram bons, mas se bem conheço os humanos, ninguém vai ficar sensibilizado com um retratinho de pomba no semáforo. Gente não tem tempo a perder com poesia. Além disso, pesam sobre elas algumas verdades incontestáveis que nem eu, que já fui uma defensora das pombas, posso mais sustentar.
Argumentei que à noitinha elas chegam como um bando de transviadas, fora da lei e da ordem, repetindo o ritual de espalhar caca nas ruas, borrar os carros, transformar as praças em condomínios sem portaria, onde todas entram, dando preferência a apartamentos duplex no topo das árvores. É de lá de cima que atiram sem piedade nos que passam embaixo, a ponto das mulheres usarem sombrinhas sem chuva ou os homens cobrirem a cabeça com jornais para fugir das bombas, isto é das pombas.
O pior é o mau cheiro, com a poeira da caca levantando como gelo seco e a gente aspirando aquele resíduo que provoca doenças, enquanto os garis, às vezes sem máscaras, têm que varrer e lavar toda sujeira.
Dona Pomba sacudiu as penas, estufou o peito e falou gaguejando de suas amigas da Europa: ''Elas vivem nas praças chiques de Lisboa e Veneza, e foram controladas sem abate, a penas, isto é, apenas, com anticoncepcionais que diminuíram a sua reprodução, embora até Jesus tenha aconselhado: Crescei e multiplicai-vos.''
Falei de novo: ''Nem vem Dona Pomba! Comigo a senhora perde tempo com argumentos religiosos, nestes tempos da Bispa Sônia, não confio em gente que evoca o Santo Nome de Deus em vão. Veja, até os carros viraram 'Propriedade de Jesus', sendo que ele nunca teve carteira de motorista! Enfim, Dona Pomba, crescer e se multiplicar é pra quem tem juízo, pra quem faz dois ou até três filhotes durante toda a vida. Não pras senhoras, que perdem a conta de quantos ovos põem nos ninhos.''
Ela estufou o peito outra vez: ''Isto que dá viver em país do Terceiro Mundo. Minhas primas de Veneza são tratadas pelos turistas a pão-de-ló. Nós só comemos soja e a pipoca que as crianças nos dão. Mas também é verdade que o lixo da sua cidade é um banquete para nossa turma. É só revirar os sacos, ciscar perto dos latões sem tampa. Outra dia, comi picadinho de carne, bombom na sobremesa e encerrei a refeição com um golinho de cerveja depois do jogo do Brasil.''
Ameacei: ''Pois a festa vai acabar, Dona Pomba! Com ou sem jogo a sua torcida não vai mais encher a cara, ainda que sobrem latinhas fora do lixo.''
Então ela pediu, com uma singeleza que me lembrou a Pomba da Paz de Picasso: ''Faça o seguinte, avise aí ao novo secretário do meio ambiente que queremos participar da reunião com o Ibama, pra ver o que será feito de nossas vidas. Diga a ele que se plantarem árvores na zona rural, a gente dorme lá mesmo, não vamos voltar aos condomínios da cidade, mesmo porque há falta de duplex devido ao excesso de nossa população. Acredite se quiser, há 'sem árvores' entre a nossa espécie. Pombas que dormem até nas tubulações de ar-condicionado, de onde nos expulsam com rojões mesmo quando não há Copa. Então nosso acordo é esse: Plantem árvores no meio das lavouras e nunca mais terão que gritar 'Bomba! Bomba!' Quando vêem as pombas!''
Anotei o recado para levar à prefeitura, meio sem esperança é verdade, neste papel de conciliadora de autoridades e aves. Afinal, um não entende a vida nem a língua do outro. Por isso, cada um atira como pode.
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