ReproduçãoNelson Motta
mostra o que
se passou nas ruas e bares,
além dos gramados durante as Copas‘‘Confissões de um Torcedor - Quatro Copas e Uma Paixão’’, do jornalista e letrista Nelson Motta, é, por definição de seu autor, um antepasto, um aperitivo até o prato principal, a Copa do Mundo da França, que começa no dia 10 de junho.
Trata-se de um livro de torcedor, não de jogador; se há estratégias, é de como se divertir na cidade-sede. É um livro de festa, não de dribles; mais de arquibancada, ruas e bares do que de gramado. O lançamento no Rio foi na segunda-feira, no Espaço Unibanco de Cinema, em Botafogo, e em São Paulo, será no dia 5, na 15ª Bienal Internacional do Livro (estande 78, pavilhão azul).
Motta passou seis meses preparando suas confissões. Escarafunchou os 120 textos escritos nas quatro últimas Copas em que viajou como cronista: Espanha 82, México 86, Itália 90 e Estados Unidos 94. Não são exatamente essas as crônicas do livro, mas o autor partiu delas para (re)escrever o seu diário e daí confessar-se apaixonado por futebol e, sobretudo, por festas.
Uma espécie de diário escancarado ao leitor, o livro é dividido em quatro capítulos. Há menções a outras Copas, já que Motta esteve em sete. A primeira foi em 66, na Inglaterra, porém, aquele Brasil bicampeão sendo massacrado por Hungria e Portugal não são boas lembranças para a ocasião. No México, em 70, foi melhor e lá estava o jovem jornalista acompanhando os tricampeões na condição de enviado especial do jornal ‘‘Última Hora’’. Essas histórias estão no Bate-Bola, brevíssimo capítulo de introdução.
‘‘Confissão de um Torcedor’’ traz o sabor de contar ao leitor muito mais do que se viu nas TVs, seja no gramado, nas comemorações, no sagão do hotel dos jogadores. Vai além do tira-teima da Globo. A escrita, ágil, sedutora de Motta revela um bastidor despretensioso de como brasileiros vêem (e são vistos) nas competições. Alguém lembrava o quão popular era Carlos Alberto Pintinho na Espanha dos anos 80? Estrela do time do Sevilha, passeava pelas noites da cidade em seu BMW escarlate, ao lado de Paulo César Caju e Motta. Bebiam aqui e ali e Motta hoje relembra tudo.
O capítulo sobre a Copa do México é, para o autor, o mais engraçado e não que se esforçasse para tanto, mas, segundo diz, a simplicidade do lugar e a desorganização da competição faziam do território um Deus-nos-acuda. De lá sai a pérola: ‘‘O café aqui é tão ruim que não deveria ser servido em xícaras grandes, mas em pequenos penicos’’, está escrito. O atendimento dos restaurantes não era o forte da terra. Sobre o Fritanga’s Grill, ponto de encontro de brasileiros, escreve Motta: ‘‘Os serviços atingiram um nível de lentidão tal que João Ubaldo propôs, sob aplausos, que fossem importados garçons baianos para agilizar os trabalhos’’.
Motta escolheu recontar as últimas quatro copas porque, acredita, formam uma história completa com fim feliz com o tetra conquistado nos EUA. Por trás do futebol há comentários, críticas, considerações sobre a situação político-econômica do País que nestes 16 anos viveu a pré-abertura de 82, o Plano Cruzado com Sarney, em 86; o Plano Collor com o próprio, em 90; e a URV, o embrião do Real, em 94.
Dentro de algumas semanas Motta embarca para a França. Vai assistir à sua oitava Copa do Mundo, desta vez, garante, não fará anotações. Diz que a concorrência está grande. Em 1970 era apenas ele e outro cronista. ‘‘Em 94 já havia mais gente do que assunto’’ diz.

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