Curitiba - Nada de roupas de grife ou tendências inevitavelmente passageiras. A moda hoje é eclética e existe para satisfazer os desejos das pessoas. É o que defende um dos mais conceituados produtores de moda do Brasil, Paulo Borges. Organizador do São Paulo Fashion Week, maior evento de moda da América Latina, Borges esteve em Curitiba a convite do Parque Jockey Shopping, empreendimento ainda virtual, com inauguração prevista para março de 2005.
Vestindo camiseta Hering e casaco de couro comprado em brechó, Borges fez questão de frisar, durante o bate-papo restrito a convidados, que a moda deve estar a serviço do inconsciente das pessoas. ''Não acredito na palavra tendência. Para se vestir as pessoas têm que satisfazer os seus desejos, independente da grife'', diz. ''Moda é uma coisa, roupa cara é outra bem diferente. Uma camiseta branca, por exemplo, é um item de moda eterno.''
Em mais de 20 anos dedicados à moda, o paulista de Ribeirão Preto revela que desde os 15 anos já prestava atenção nos casamentos que frequentava no interior paulista, atento ao estilo dos convidados, noivos e padrinhos. ''Isso é uma lembrança da moda forte para mim'', conta. Com o passar do tempo e entre inúmeras viagens à Europa, Borges revela que foi no Brasil que encontrou o relacionamento ideal das pessoas com a moda e por isso investiu no evento que hoje é destaque internacional, reunindo anualmente milhares de pessoas na capital paulista.
''O brasileiro não usa roupa apenas para se proteger do frio, nem para se preservar politicamente ou socialmente. O brasileiro usa as roupas como um código de relacionamento'', argumenta. Código que ganhou força, principalmente, nos últimos oito anos, conforme destaca o produtor. ''Desde os anos 50, 70 temos movimentos ligados à moda, mas são movimentos pulverizados e nada tão forte como o que acontece agora e nesses últimos anos.''
Para Borges, pelo menos dois fenômenos contribuíram para esse ''boom''. As lojas de departamento, como a Mesbla, hoje extinta, e a proliferação dos shopping centers. ''As lojas de departamento e as lojas instaladas nos shoppings sabem lidar com a evolução do desejo das pessoas, mesclando esse desejo com a necessidade do consumo.''
Mas essa engrenagem não roda sozinha. Segundo Borges, vários setores se profissionalizaram na esteira da moda brasileira, como a indústria têxtil. ''É por isso que os biquínis e os jeans brasileiros têm tanta aceitação no mercado internacional'', exemplifica.
Borges reuniu em livro parte da história da moda no Brasil. Em parceria com Giovanni Bianco, o livro ''O Brasil na Moda'' mescla a narração de acontecimentos históricos ligados à moda com experiências pessoais do próprio autor e deve ser lançado final do ano.

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