Com a corda toda
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 2015
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Walcyr Carrasco vê com bons olhos sua fama de workaholic. "É sinal de que estou produzindo. Não consigo mesmo ficar parado e não acredito muito em ócio criativo. Trabalhar é exercitar a mente e ter novas ideias", garante. O atual momento do autor na Globo ratifica sua postura. Próximo de colocar o ponto final na bem-sucedida "Verdades Secretas", ele já mergulha no extenso processo de "Candinho", novela que marca sua volta ao horário das seis, faixa que o tornou famoso na emissora. "Eu pedi para voltar a escrever às 18 horas. Estava com saudades de fazer histórias mais simples e cômicas", entrega.
Nascido há 63 anos na pequena Bernardino dos Santos, interior de São Paulo, Walcyr chama a atenção pela sua versatilidade. No ano em que completa 15 anos como contratado da Globo, o autor confirma a versatilidade de sua assinatura ao ser o único no "hall" de escritores da emissora a escrever tramas às seis, sete, nove e onze da noite. "Gosto de experimentar e conhecer outros públicos. Estou aberto a esse compromisso que a empresa me propõe", avisa.
No currículo, muitos acertos como "O Cravo e A Rosa", "Alma Gêmea" e "Chocolate com Pimenta" e o remake de "Gabriela", mas alguns tropeços como "Morde & Assopra". "O novelista tem de ousar e sair do lugar-comum. Vale tudo na hora de entreter o público. Afinal, todo autor quer mesmo é ser assistido", ressalta, com o bom humor que lhe é peculiar.
"Verdades Secretas" é a primeira trama inédita da faixa das 23 horas e levantou a audiência do horário, com média em torno dos 20 pontos. Como você avalia o desempenho deste trabalho?
Para um projeto com tantas apostas, acho que a novela tem se saído muito bem. A audiência me deixa muito feliz, pois é um horário complicado. Tem uma pausa às quartas, então a complexidade de manter o público curioso pela história é grande. Outro ponto que me deixa contente é a boa recepção do público jovem, aquele que não assiste a qualquer novela mais tradicional. Desde quando começamos a pensar na produção, eu e o Mauro (Mendonça Filho, diretor) queríamos conquistar aquele tipo de espectador que prestigia séries americanas e comenta tudo no Twitter.
"Babilônia" sofreu alguns ajustes da Globo ao abordar o tema da prostituição. "Verdades Secretas" vai mais além no assunto e exibe a nudez de suas atrizes. Você ficou com receio de ter a trama rejeitada e seu trabalho alterado?
Não. Quando a Globo me ofereceu o horário, eu pedi um tempo para pensar, tirei a ideia da gaveta e falei: "Essa história só pode ser contada dessa forma. Qualquer alteração de última hora vai descaracterizar a obra, soar 'fake' e sem o mesmo apelo que foi pensado". Tudo foi acordado com a cúpula da emissora antes. Afinal, sou apenas o autor, a novela é da Globo. Se tivesse de mudar, isso seria função deles e não minha. A novela teve algumas reclamações, mas nada que provocasse alguma alteração.
Você está na Globo há exatos 15 anos e é o autor mais solicitado neste período, com cerca de 13 trabalhos. Descansar os tradicionais dois anos entre uma novela e outra está fora dos seus planos?
A vontade de trabalhar é sempre mais forte. No pouco tempo em que fico fora do ar, estou sempre escrevendo, seja a sinopse de uma próxima novela, textos para o teatro ou livros. É o que eu sei fazer e o que me satisfaz. E é sempre em ritmo acelerado. Comecei a pensar em "Verdades Secretas", por exemplo, quando estava quase chegando ao final de "Amor à Vida". A Globo me disse que estava pensando em uma novela inédita para a faixa das onze e me pediu para escrever uma sinopse.
"Candinho" tem previsão de estreia para o início de janeiro. O que você pode adiantar sobre a trama?
É uma novela que diz muito sobre a minha assinatura como autor. É um trabalho de época, onde me inspiro no conto "Cândido", de Voltaire, e na adaptação cinematográfica que o Mazzaropi fez para esse texto nos anos 1950. É a história de um homem que tem sempre uma visão positiva da vida, mesmo que tudo esteja errado.
Em "Candinho", você volta a trabalhar com Jorge Fernando, que dirigiu alguns sucessos com a sua assinatura, como "Chocolate com Pimenta" e "Alma Gêmea". Como está essa retomada?
Eu e Jorge somos grandes amigos e sempre nos entendemos muito bem. Foi natural que esse trabalho fosse desenvolvido no núcleo dele. Acho que ele tem a visão perfeita para a minha comédia. Assim como descobri que o Mauro (Mendonça Filho) tem a visão perfeita para quando quero carregar a mão no drama. A televisão é um lugar de encontros. Eu fico muito feliz em poder trabalhar com diretores que sempre me surpreendem e valorizam as minhas criações.


