Com 18 imagens Paulo Gil faz leitura de Alberto Caeiro
São Paulo, 13 (AE) - Fernando Pessoa não gostava de fotografia; a via como uma representação enganadora ou, no mínimo, provisória, do real. Talvez a visão de um de seus heterônimos, Alberto Caeiro, sobre o significado das coisas traduza a resistência de seu criador à imagem. Dizia o pastor: "O único sentido íntimo das coisas/ É elas não terem sentido íntimo nenhum". Com essa referência, o fotógrafo Paulo Gil criou 18 imagens que são a leitura pessoal de "O Guardador de Rebanho", mais conhecido livro de poemas de Caeiro. A partir de amanhã (14) elas estarão expostas no Museu de Imagem e do Som (MIS).
Por mais que se apresente a exposição como fotográfica, ela pouco ou nada define o trabalho de Gil. "Faço uma linguagem nova, a da imagem digital, mas sem a pretensão de substituir a pintura nem mesmo a fotografia", explica. Duas exposições anteriores, "O Fotógrafo Construtor" (1993) e "5 Expressões" (1995), no MIS, foram esboços desse projeto.
A idéia original era simples, mas nem por isso menos inovadora. "A imagem só teria sentido se vista pelo visor de uma câmera fotográfica, caso contrário, seria nada mais do que um bando de sucata empilhada", conta Gil. "A interferência dava-se pela manipulação do cenário e objetos, sem retoques e montagens em laboratório." Nos anos seguintes, Gil substituiu o visor pela tela e o laboratório pelo computador, abusando da sobreposição de figuras.
Em "O Guardador", cada imagem está identificada por um verso do poema de Caeiro. A "O Vento", segue-se: "Olá, guardador de rebanhos,/ Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?/ Que é vento, e que passa,/ E que já passou antes,/ E que passará depois, E a ti o que te diz?/ Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades/ E de cousas que nunca foram." Assim como a fotografia, conclui Gil, é uma ilusão e uma referência constante ao passado.
À primeira vista, podem surpreender as figuras de peixes em todas as fotos. Gil explica: "O movimento de um cardume é como do vento; o que o peixe faz com a água é o mesmo que o vento faz com as plantas."
A exposição é uma forma de resistência à idéia, difundida por Caeiro, de que nada tem significado. "A recordação é uma traição à natureza e lembrar é não ver", dizia o poeta. Nesse contexto, a fotografia perderia sua importância, uma vez que trabalha justamente com a memória. Paulo Gil. Em O Guardador.... De terça a domingo, das 14 às 22 horas. MIS. Avenida Europa, 158, tel. 852-9197. Até 17/10. Abertura às 20 horas





