Columbia lança "O Último Hurra" e "Paraíso Infernal" em DVD
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 24 (AE) - Houve um tempo, principalmente por volta de 1960, na França, em que virou moda falar mal de John Ford para realçar as qualidades de Alfred Hitchcock e Howard Hawks. A prestigiada revista "Cahiers du Cinéma", cujos críticos eram essencialmente hitchcock-hawksianos, tratava Ford como um acadêmico supervalorizado, como se ele não fosse o Homero de Hollywood. O grande Hawks foi o primeiro a restabelecer a hierarquia: declarou numa entrevista que aprendera tudo sobre cinema vendo os filmes de Ford e Cecil B. DeMille. Com Ford, aprendeu tudo o que se devia fazer nos filmes; com DeMille, o que era preciso evitar. Ford e Hawks são as estrelas do novo pacote de DVDs da Columbia. A empresa traz "O Último Hurra" do primeiro e "Paraíso Infernal" do segundo. São ímperdíveis para cinéfilos.
"O Último Hurra" é de 1958. Situa-se, na obra de Ford, entre "ásias de águia" e "Um Crime por Dia", um filme de guerra, de aviação, e um policial ambientado em Londres. Todos distantes da especialidade do mestre, as planícies do Velho Oeste, mas perfeitamente integrados na essência daquilo que se convencionou chamar de "universo fordiano". Numa cena de "O Último Hurra", Skeffington, o personagem de Spencer Tracy, pergunta ao sobrinho (Jeffrey Hunter), jornalista esportivo, qual é o esporte preferido dos americanos. Ele pergunta e responde que não é o beisebol, mas a política. (É possível que essa réplica tenha inspirado Hawks a fazer "O Esporte Favorito do Homem", em que usou a pescaria para falar sobre a arte de conquistar mulheres.)
Skeffington é político profissional. Participa daquela que será sua última campanha. Quer ser prefeito de sua cidade, mas encontra um feroz adversário na disputa de votos. Na época, Ford estava perfeitamente antenado com o que se passava à sua volta. Dois anos depois, a TV definiria a histórica disputa entre John Kennedy e Richard Nixon. Ford antecipou-se aos fatos. A campanha na TV também decide o pleito de "O Último Hurra". Ford sacou (ou intuiu) que a política-espetáculo, via televisão, iria substituir a política tradicional. Seu filme foi profético.
De origem irlandesa, como o cineasta, Skeffington é um homem de princípios que, às vezes, cede à demagogia. Transforma um velório num comício, por exemplo, aproveitando-se da emoção do momento para tocar o coração dos eleitores. Por meio dele, Ford desenvolve o seu tema preferido - a glória dos derrotados. É um filme marcado pela desilusão, celebrando o canto de cisne de um homem honrado e seu mundo que chegam ao fim. Não é o melhor Ford, mas tem classe.
"Paraíso Infernal" tem mais do que classe. É um dos melhores filmes de Hawks. Seu frescor até hoje cativa, decorridos 61 anos. É de 1939, um ano mitológico na história de Hollywood, quando surgiram "No Tempo das Diligências", de Ford
e ... "E o Vento Levou" e "O Mágico de Oz", creditados a Victor Fleming, entre outras obras cultuadas. Se existisse mesmo a hawkslândia, território por excelência da aventura que é um dos motores da obra de Hawks, Barranca seria sua capital. É a cidade imaginária em que se passa "Paraíso Infernal".
Quando o filme começa, Bonnie (Jean Arthur) está chegando a Barranca. É uma estranha no mundo fechado de um grupo de pilotos de aviação. Eles possuem suas próprias leis e compromissos. Seu líder é Jeff (Cary Grant). É a matriz dos personagens de John Wayne em obras-primas como "Onde Começa o Inferno" e "Hatari!" Jeff transforma a dignidade em seu primeiro mandamento: uma vez aceito um compromisso, é preciso honrá-lo até o fim, mesmo com o preço da própria vida.
Esse tipo de profissionalismo sempre foi fundamental no cinema de Hawks. "Paraíso Infernal" recorre à aventura para tratar de temas hawksianos como dignidade e responsabilidade. Além, é claro, das relações entre homens e mulheres, que tanto fascinavam o mestre da ação e do humor. Os dois lançamentos são enriquecidos por trailers, anúncios de época, filmografias e notas de produção. Serviço - "O Último Hurra" (The Last Hurrah). Dir. de John Ford. P&B, 121 min. "Paraíso Infernal" (Only Angels Have Wings). Dir. de Howard Hawks. P&B, 121 min. Columbia


