Arquivo FolhaTanto o messianismo quanto a carência material devem ser convocados para explicar por que 20 mil pessoas seguiram Antônio Conselheiro, estabeleceram-se no Belo Monte e resistiram até a morte diante de um exército mais numeroso e melhor armado.Um belo time de analistas está reunido no livro ‘‘Canudos - Palavra de Deus, Sonho da Terra’’ para jogar um pouco de luz sobre esse que foi o maior genocídio da história brasileira. Organizado por Benjamin Abdala Junior e Isabel M. M. Alexandre, o livro compõe-se de dez estudos que tentam fazer o leitor compreender a saga do arraial, cujo fim ocorreu há exatos 100 anos.
De fato, tanto o messianismo quanto a carência material devem ser convocados para explicar por que 20 mil pessoas seguiram Antônio Conselheiro, estabeleceram-se no Belo Monte e resistiram até a morte diante de um exército mais numeroso e melhor armado.
Estão presentes Renato Janine Ribeiro, Rodrigo Lacerda, Barbara de Leonardis, Francisco Foot Hardman, Adilson Odair Citelli, Roberto Ventura, Walnice Nogueira Galvão, Janice Theodoro, Jerusa Pires Ferreira e José Calasans. Como em geral acontece com as obras coletivas, esta também é composta de picos e vales. A diversidade das abordagens, no entanto, permite que a unidade seja encontrada justamente na pluralidade.
Assim, é muito interessante tomar contato com a permanência da saga do Conselheiro no imaginário popular por meio da literatura de cordel. Quem trabalha o tema é o professor José Calasans, ‘‘canudólogo’’ eminente e autor de obra fundamental sobre o assunto. Também é muito curioso, para dizer o mínimo, acompanhar a correspondência inédita de Euclides da Cunha, na época de sua partida para a Bahia como correspondente do jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’. Pelas cartas, fica evidente a sua disposição republicana, tida então como diametralmente antagônica ao suposto monarquismo do Conselheiro.
Façanha sem glóriaO tom varia de autor para autor. A análise a frio convive com a indignação aberta. Essas atitudes opostas às vezes aparecem no mesmo texto, como é o caso de ‘‘Tróia de Taipa: de Como Canudos Queima Aqui’’, de Francisco Foot Hardman, que principia por uma análise serena da permanência de Canudos na memória nacional e termina por constatar que a exclusão de milhões é a condição para que a farsa ‘‘de nossa precária civilização’’ continue a ser encenada. Nesse sentido, pondera Hardman, o destino do índio Galdino Pataxó, que morreu queimado por alguns expoentes da jeunesse dorée de Brasília, não passa de um avatar recente de Canudos.
Isso porque - e nesse ponto há uma previsível convergência de conclusões - Canudos é emblema do embate entre o Brasil oficial e o Brasil real. Em vários artigos discute-se a presença ou não de ingredientes sebastianistas ou messiânicos no discurso do Conselheiro. Ninguém põe em dúvida, porém, que um fenômeno como Canudos só pôde surgir de uma situação de extrema penúria e desesperança. Tudo isso é óbvio, como também evidente é a tendência brasileira de traduzir a questão social em caso de polícia.
Canudos foi uma guerra de extermínio, como todos sabem e o próprio Euclides da Cunha admite nas dramáticas páginas finais de ‘‘Os Sertões’’. O republicano de primeira hora, convicto de que o novo sistema era ponta-de-lança do processo civilizatório, põe de lado o discurso ufanista e confessa: ‘‘Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos’’.
Dessa façanha sem glória ficaram algumas perguntas não-respondidas, que, no livro, são articuladas com clareza pela professora da USP Janice Theodoro. A população de Canudos não estaria resolvendo melhor seus problemas cotidianos sob as ordens do Conselheiro do que no Estado Republicano? Não haveria, no arraial, um sentido comunitário que beneficiaria a vida daquelas pessoas? Não seria possível chegar a uma solução negociada com Antônio Conselheiro, a exemplo do que foi feito com o Padre Cícero?
São perguntas mais que atuais. Convidam a refletir sobre o alcance do individualismo liberal na solução dos problemas dos mais carentes; sobre o limite da competição na eficácia social; sobre a relação assimétrica do diálogo entre poderosos e desfavorecidos no Brasil contemporâneo. Tudo isso insiste em permanecer atual, para desgosto do neo-iluminismo liberal. Na verdade, não é preciso nenhum apelo ao transcendente para entender por que Canudos ainda é uma ferida aberta na memória nacional.
‘‘Canudos - Palavra de Deus, Sonho da Terra’’ - Renato Janine Ribeiro e outros, organização de Benjamin Abdala Junior e Isabel M. M. Alexandre, Boitempo Editorial e Editora Senac São Paulo, 160 páginas, R$ 25,00

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