Colocando lenha na fogueira das vaidades
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de agosto de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Reproduçãoérgio SantAnna é um dos grandes expoentes da literatura brasileira contemporâneaCerto dia um homem trava um encontro com uma moça nas escadas do metrô do Rio de Janeiro. Uma obra do acaso. Na realidade, ante um desmaio, ela se apóia nele para não cair. Ele a ampara com cuidado e acabam por marcar um encontro para o dia seguinte. Na incômoda despedida, ele percebe que, além de sua beleza, ela é manca. Apaixona-se.
Este encontro é ponto de partida do novo romance do escritor carioca Sérgio SantAnna, Um Crime Delicado, lançado pela Editora Companhia das Letras. A partir deste encontro, aparentemente um lugar comum, SantAnna constrói sua obra mais estratégica, onde a grande personagem é a arte contemporânea. Com uma ironia delicada, o escritor coloca a arte rompendo seus limites estéticos para cair nas armadilhas da linguagem: Ah, como são escorregadias e traiçoeiras as palavras, que, uma vez pronunciadas ou escritas, logo nos obrigam a enunciar outras, a fim e esclarecer as primeiras, e assim por diante.
O homem, Antônio Martins, é o protagonista e narrador, é um crítico de teatro com 50 anos de idade. A mulher, Inês, é modelo de um pintor desconhecido. Após o segundo encontro, Antônio está perdidamente apaixonado, alucinado para possuí-la.
Convidado para a abertura de uma exposição de artes plásticas, pela própria Inês, Antônio vê um quadro pintado pelo artista plástico Vitório Brancatti. Na tela está Inês, nua, na sala de seu apartamento, atrás de um biombo. Incomodado, Antônio realiza uma leitura crítica da obra e chega à conclusão de que o apartamento de Inês é na realidade o cenário de uma obra de Vitório e ela própria, Inês, é parte integrante da obra. O artista manipulando vidas e espaços para realizar um objeto estético, uma instalação.
Antônio acaba sendo acusado pelo estupro de Inês, e o processo judicial deixa de ser criminal para se tornar estético. Para Antônio, a obra de Vitório não possui valor pois está fundamentada em falsos pressupostos. Para Vitório, a própria interferência de Antônio na vida de Inês faz parte de sua obra. Uma guerra entre artista e crítico sem disfarces - e as vaidades inundando a cidade.
Um Crime Delicado é o relato do crítico de sua visão dos fatos. E uma dúvida se instala: o narrador, Antônio, escreve o livro para oferecer a sua visão dos fatos ou para criar uma obra de arte que se oponha à obra de Vitório? O encontro de Antônio e Inês, e o próprio crime, o suposto estupro, são componentes da obra artística do pintor ou apenas um evento estético para que Antônio exerça sua profissão de crítico? Delicadas dúvidas.
Aos 55 anos de idade, Sérgio SantAnna é um dos grandes
expoentes da literatura brasileira contemporânea. Uma ótima oportunidade para conhecer sua literatura é através de Contos e Novelas Reunidas publicado recentemente pela Editora Companhia das Letras. O livro compreende sete de seus 12 livros publicados: O Sobrevivente de 1969, Notas de Manfredo Ragel, O Repórter de 1973, O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro de 1982, A Senhora Simpson de 1989, Breve História do Espírito de 1991,O Monstro de 1994 e ainda quatro contos inéditos. Neste volume, pode-se encontrar as mais variadas facetas da obra de SantAnna, desde experimentações de formas narrativas até a estrutura tradicional do conto.


