Desde que o diretor Robert Altman, Oscar honorário no último domingo, começou a entrecruzar histórias e personagens em busca da essência da humanidade, a partir de 1970 com os brilhantes ''M.A.S.H.'', ''Nashville'' e ''Cerimônia de Casamento'' - os calouros da crítica estranhamente parecem desconhecer o Altman essencial, pré ''O Jogador'' e ''Cenas da Vida'', anos 90 -, um ou outro discípulo mais ou menos talentoso vem procurando reciclar ou meramente copiar aquela fórmula exclusiva de patchwork que o veterano realizador lançou e usou com maestria.
Agora é a vez de Paul Haggis, premiado roteirista de ''Menina de Ouro'', dar o seu recado de acordo com o figurino altmaniano. Fica ali pelas imediações, às vezes parece corajoso e até atrevido ao buscar alternativas próprias, mas o tom dramático da narrativa e a ambição das metáforas acabam comprometendo o discurso. De qualquer maneira, ''Crash - No Limite'' merece atenção, e consequentemente esta segunda chance por conta de um tour de force que não estava nos planos da mídia mundial e muito menos do pessoal de ''Brokeback Mountain''.
Já muito rodado até de mão em mão corsária pelos camelódromos da vida - o lançamento nacional, inclusive em Londrina, foi no dia 18 de novembro último -, o filme está de volta a partir de hoje em considerável circuito (confira a programação de cinema na página 2). Agora é torcer pela qualidade da cópia, já que do momento da cerimônia do Oscar até hoje decididamente não houve tempo para tirar novas.
A impressão que custa um tanto a se diluir, sem no entanto desaparecer de todo, é que ''Crash'' não quer ser mais do que um filme portentoso: a música, a montagem, o argumento e o elenco pedem, exigem até, toda a atenção do mundo, todo o respeito disponível. Cada sequência parece anunciar: aqui está um filme importante que sabe que é importante e mais, quer que todos saibam que é importante. E por este, digamos, excesso de empáfia, acaba mesmo levando um castigo: volta e meia se torna enfadonho, quase chato por insistir na reiteração.
O cenário é Los Angeles, num dia frio de dezembro. O espectador segue a pista de pelo menos uma dúzia de personagens de diferentes etnias, origens e segmentos sociais. São eles: um policial branco e racista (Matt Dillon) e outro, novato, que não é (Ryan Phillippe); um fiscal hipócrita (Brendan Fraser) e sua neurastênica, insuportável mulher (Sandra Bullock); uma dupla de articulados delinquentes negros (Larenz Tate e o rapeiro Ludacris); um equilibrado detetive negro (Don Cheadle) e sua atraente parceira e também namorada latina (Jennifer Espósito); um iraniano histérico (Shaun Toub) que já foi muitas vezes molestado; um serralheiro mexicano e bom caráter (Michael PeÀa), também muito ofendido ao longo do tempo; e finalmente um jovem e rico casal de negros à beira de um colapso depois de ser segregado e humilhado.
O território então é aquele mesmo alegórico já citado do mestre Altman de ''Cenas da Vida'' (Short Cuts), ou nos domínios de um seguidor mais jovem, o Paul Thomas Anderson de ''Magnólia''. Para ser mais preciso, muito mais dentro das fronteiras do universo dramático de Anderson, se levarmos em conta a debilidade que tem Paul Higgis quando esfrega no rosto do espectador uma e outra e mais outra vez suas propostas, ideais, provocações e até imagens e licenças poéticas - não, aqui não chove sapos e rãs, mas cai dos céus de Los Angeles algo muito mais estranho.
O ''crash'', a colisão contida no título original está presente desde logo na narrativa. As pessoas se chocam umas com as outras na cidade nua pela necessidade de ter contato com outros seres humanos, diz um dos protagonistas que acaba de sofrer um acidente de carro. Surpreendente ou não, a metáfora está servida. E outros choques vão se suceder ao longo do filme, diagnosticando as enfermidades de um entorno social em grave e generalizada crise de afetividade, identidade, solidariedade, sociabilidade. De tolerância, enfim.
O problema é que Haggis, por reiteradas vezes deixa de ser um narrador à espera da contribuição de seu interlocutor (o público) para se transformar em apóstolo, em arauto. É quando ''Crash - No Limite'' parece manipular e julgar seus personagens, extorquindo lágrimas de uma platéia que estaria melhor raciocinando a seco.
Não se pode negar ao diretor habilidade na obtenção de linhas dramáticas interessantes, todas com certeza confluindo na direção dos dois ladrões negros. E é também inegável que o cineasta é esplêndido diretor de elenco. Os filmes corais - e esta é outra lição preciosa de Altman - não podem conter sequer uma nota falsa de seus intérpretes. E se há um bom motivo para ver ''Crash'' é o desfile de atores impecáveis, Dillon, Cheadle, Fraser e até Sandra Bullock, acredite se for capaz.

mockup