Coletâneas de bambas chegam às lojas
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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Coleções e séries de música popular brasileira chegam aos montes ao mercado. O pacote de 6 CDs Sambas da Minha Terra (BMG), lançado esta semana, é mais uma contribuição à tendência que vem entupindo as prateleiras das lojas desde meados do ano passado.
No caso, adere à temporada carnavalesca. A fornada mostra o samba em sua diversidade dedicando cada título a um sub-gênero ou categoria todos em formato de coletânea. As gravações foram garimpadas nos arquivos da antiga RCA Victor e da BMG. A escolha das faixas privilega os clássicos e intérpretes consagrados embaralhando muitas vezes a coerência do projeto.
No volume sambas-enredo, por exemplo, optou-se por uma discutível seleção de medalhões que excluiu as tradicionais composições cantadas pelas escolas de samba nos desfiles preferindo as músicas feitas fora da passarela, ainda que obedientes à sintaxe do gênero. Assim, Chico Buarque aparece com Vai Passar, parceria com Francis Hime no famoso enredo sobre o Brasil pós-ditadura.
João Bosco e Aldir Blanc colaboram com Mestre-Sala dos Mares, a ode ao líder da revolta da Chibata, João Cândido. O compositor Paulo César Pinheiro também se faz presente ao lado de Mauro Duarte exaltando a verde-rosa em Mangueira, Estação Primeira. Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Cartola e João Nogueira são outros nomes escalados entre as 14 faixas.
Mais fiel ao título, o volume Samba de Breque/Gafieira destaca Moreira da Silva (1902-2000), que canta em duas faixas (Esta noite eu tive um sonho e Amigo Urso) e é homenageado pelo seguidor Dicró (Kid Morangueira). A Moreira é conferido o título de inventor da célebre paradinha na melodia para encaixar alguns versos, embora muitos estudiosos apontem Luis Barbosa como o pioneiro do estilo.
No disco, Barbosa é lembrado com Risoleta, uma gravação de 1937. O rival de Moreira, Jorge Veiga (1910-1979), também tem vez na coletânea interpretando Acertei no Milhar (clássico do ritmo assinado por Geraldo Pereira e Wilson Batista) e Café Soçaite (com introdução de Cyro Monteiro e letra de Miguel Gustavo). O próprio Cyro Monteiro mostra seu sincopado em Falsa Baiana e Botões de Laranjeira. Geraldo Pereira também revela seus dotes de cantor nos raros desempenhos de Dama Ideal e Falso Patriota.
No volume Partido-Alto/Pagode, as faixas selecionadas passam longe do que ficou conhecido como pagode nos dias atuais e fazem juz às verdadeiras origens do nome. Antes que fosse corrompido pelo mercado, pagode denominava as reuniões onde se cantava partido-alto nos fundos de quintal a partir do final da década de 70.
Arautos da corrente, a cantora Beth Carvalho e seu apadrinhado Zeca do Pagodinho puxam o repertório do CD respectivamente com Vou Festejar, O Feijão da Dona Neném e Camarão que dorme a onda leva (onde os dois protagonizam um impagável dueto). Na esteira, entram Nei Lopes, Marquinhos Satã e até Bezerra da Silva com Malandragem dá um tempo.
Na área dos partideiros, o disco inclui bambas como Geraldo Barão, Jamelão, Candeia, D. Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Martinho da Vila e João Nogueira. Um time de primeira também desponta no volume Samba-Canção, gênero que viveu seu apogeu entre os anos 30 e 60 calcando-se na mistura da força rítmica do samba com a melodia da canção. Lupiscínio Rodrigues (com Esses Moços e Caixa de Ódio, esta na voz de Jamelão), Nelson Gonçalves (A Noite do Meu Bem), Orlando Silva (Amigo Leal) são alguns dos contemplados.
O maestro Tom Jobim abre a seleção cantando com Gal Costa a bonita Caminhos Cruzados, feita em parceria com Newton Mendonça. É o mestre Cartola, todavia, que recebe as lôas dos organizadores da coletânea sendo escalado duplamente como autor, gravado pelo discípulo Paulinho da Viola no emblemático As Rosas não Falam, e como intérprete da própria obra em Autonomia.
Reconstituindo as origens do ritmo, o volume Afro/Raízes pesca raridades como o ponto de macumbaYaô, na única gravação de Pixinguinha cantando, e regravações de Pelo Telefone (de Donga por Martinho da Vila), Nego Véio quando morre (de Domínio Público pelos Originais do Samba) e uma série de jongos revisitados por Beth Carvalho. João da Bahiana, figura inaugural da MPB, é lembrado com Folha por Folha (de 1938) e Conversa de Crioulo (tema instrumental criado em 1932 com Donga e Pixinguinha e executado aqui pelo Grupo da Guarda Velha).
Completa o pacote o CD Eu Canto Samba, que abriga um elenco eclético de autores e intérpretes prestando homenagens ao ritmo. Há desde o óbvio e fundamental Na Cadência do Samba (de Ataulfo Alves, Paulo Gesta e Matilde Alves) até Samba em Paz de um Caetano Veloso em início de carreira. Entre um e outro, desfilam Nelson Cavaquinho e o inseparável Guilhermino de Brito (A Flor e o Espinho), Cartola e Carlos Cachaça (Tempos Idos), Orlando Silva (Aos pé da Cruz), Tom Jobim (Piano na Mangueira), João Bosco e Aldir Blanc (O Bêbado e a Equilibrista) e Manacaé (Quantas Lágrimas).
Diferente de boa parte dos lançamentos no formato, a coleção capricha nos encartes trazendo textos de apresentação de autoria do respeitável crítico carioca Tárik de Souza. Deve chegar às lojas ao preço médio de R$ 25,00 cada título.


