Coleções e séries de música popular brasileira chegam aos montes ao mercado. O pacote de 6 CDs ‘‘Sambas da Minha Terra’’ (BMG), lançado esta semana, é mais uma contribuição à tendência que vem entupindo as prateleiras das lojas desde meados do ano passado.
No caso, adere à temporada carnavalesca. A fornada mostra o samba em sua diversidade dedicando cada título a um sub-gênero ou categoria – todos em formato de coletânea. As gravações foram garimpadas nos arquivos da antiga RCA Victor e da BMG. A escolha das faixas privilega os clássicos e intérpretes consagrados embaralhando muitas vezes a coerência do projeto.
No volume ‘‘sambas-enredo’’, por exemplo, optou-se por uma discutível seleção de medalhões que excluiu as tradicionais composições cantadas pelas escolas de samba nos desfiles preferindo as músicas feitas fora da passarela, ainda que obedientes à sintaxe do gênero. Assim, Chico Buarque aparece com ‘‘Vai Passar’’, parceria com Francis Hime no famoso enredo sobre o Brasil pós-ditadura.
João Bosco e Aldir Blanc colaboram com ‘‘Mestre-Sala dos Mares’’, a ode ao líder da revolta da Chibata, João Cândido. O compositor Paulo César Pinheiro também se faz presente ao lado de Mauro Duarte exaltando a verde-rosa em ‘‘Mangueira, Estação Primeira’’. Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Cartola e João Nogueira são outros nomes escalados entre as 14 faixas.
Mais fiel ao título, o volume ‘‘Samba de Breque/Gafieira’’ destaca Moreira da Silva (1902-2000), que canta em duas faixas (‘‘Esta noite eu tive um sonho’’ e ‘‘Amigo Urso’’) e é homenageado pelo seguidor Dicró (‘‘Kid Morangueira’’). A Moreira é conferido o título de inventor da célebre paradinha na melodia para encaixar alguns versos, embora muitos estudiosos apontem Luis Barbosa como o pioneiro do estilo.
No disco, Barbosa é lembrado com ‘‘Risoleta’’, uma gravação de 1937. O rival de Moreira, Jorge Veiga (1910-1979), também tem vez na coletânea interpretando ‘‘Acertei no Milhar’’ (clássico do ritmo assinado por Geraldo Pereira e Wilson Batista) e ‘‘Café Soçaite’’ (com introdução de Cyro Monteiro e letra de Miguel Gustavo). O próprio Cyro Monteiro mostra seu sincopado em ‘‘Falsa Baiana’’ e ‘‘Botões de Laranjeira’’. Geraldo Pereira também revela seus dotes de cantor nos raros desempenhos de ‘‘Dama Ideal’’ e ‘‘Falso Patriota’’.
No volume ‘‘Partido-Alto/Pagode’’, as faixas selecionadas passam longe do que ficou conhecido como pagode nos dias atuais e fazem juz às verdadeiras origens do nome. Antes que fosse corrompido pelo mercado, pagode denominava as reuniões onde se cantava partido-alto nos fundos de quintal a partir do final da década de 70.
Arautos da corrente, a cantora Beth Carvalho e seu apadrinhado Zeca do Pagodinho puxam o repertório do CD respectivamente com ‘‘Vou Festejar’’, ‘‘O Feijão da Dona Neném’’ e ‘‘Camarão que dorme a onda leva’’ (onde os dois protagonizam um impagável dueto). Na esteira, entram Nei Lopes, Marquinhos Satã e até Bezerra da Silva com ‘‘Malandragem dá um tempo’’.
Na área dos partideiros, o disco inclui bambas como Geraldo Barão, Jamelão, Candeia, D. Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Martinho da Vila e João Nogueira. Um time de primeira também desponta no volume ‘‘Samba-Canção’’, gênero que viveu seu apogeu entre os anos 30 e 60 calcando-se na mistura da força rítmica do samba com a melodia da canção. Lupiscínio Rodrigues (com ‘‘Esses Moços’’ e ‘‘Caixa de Ódio’’, esta na voz de Jamelão), Nelson Gonçalves (‘‘A Noite do Meu Bem’’), Orlando Silva (‘‘Amigo Leal’’) são alguns dos contemplados.
O maestro Tom Jobim abre a seleção cantando com Gal Costa a bonita ‘‘Caminhos Cruzados’’, feita em parceria com Newton Mendonça. É o mestre Cartola, todavia, que recebe as lôas dos organizadores da coletânea sendo escalado duplamente como autor, gravado pelo discípulo Paulinho da Viola no emblemático ‘‘As Rosas não Falam’’, e como intérprete da própria obra em ‘‘Autonomia’’.
Reconstituindo as origens do ritmo, o volume ‘‘Afro/Raízes’’ pesca raridades como o ponto de macumba‘‘Yaô’’, na única gravação de Pixinguinha cantando, e regravações de ‘‘Pelo Telefone’’ (de Donga por Martinho da Vila), ‘‘Nego Véio quando morre’’ (de Domínio Público pelos Originais do Samba) e uma série de jongos revisitados por Beth Carvalho. João da Bahiana, figura inaugural da MPB, é lembrado com ‘‘Folha por Folha’’ (de 1938) e ‘‘Conversa de Crioulo’’ (tema instrumental criado em 1932 com Donga e Pixinguinha e executado aqui pelo Grupo da Guarda Velha).
Completa o pacote o CD ‘‘Eu Canto Samba’’, que abriga um elenco eclético de autores e intérpretes prestando homenagens ao ritmo. Há desde o óbvio e fundamental ‘‘Na Cadência do Samba’’ (de Ataulfo Alves, Paulo Gesta e Matilde Alves) até ‘‘Samba em Paz’’ de um Caetano Veloso em início de carreira. Entre um e outro, desfilam Nelson Cavaquinho e o inseparável Guilhermino de Brito (‘‘A Flor e o Espinho’’), Cartola e Carlos Cachaça (‘‘Tempos Idos’’), Orlando Silva (‘‘Aos pé da Cruz’’), Tom Jobim (‘‘Piano na Mangueira’’), João Bosco e Aldir Blanc (‘‘O Bêbado e a Equilibrista’’) e Manacaé (‘‘Quantas Lágrimas’’).
Diferente de boa parte dos lançamentos no formato, a coleção capricha nos encartes trazendo textos de apresentação de autoria do respeitável crítico carioca Tárik de Souza. Deve chegar às lojas ao preço médio de R$ 25,00 cada título.

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