São Paulo, 16 (AE) - Tudo é possível. Até Os Mutantes virarem referência obrigatória entre o mainstream mundial da música no fim dos anos 60 e começo dos 70. Com o lançamento da coletânea "Everything Is Possible" (já disponível nas importadoras brasileiras) nos Estados Unidos pelo selo de David Byrne, o Luaka Bop, a banda de Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias entrou no rol dos artistas "indispensáveis" dos primórdios do pop.
Como é possível? Bem, basta ouvir as primeiras das 14 "gemas psicodélicas" da seleção de David Byrne para sentir que não há mesmo muito segredo. As coisas que têm revitalizado o som de gente como Beck, Beastie Boys, Pato Fu, Cibo Matto, Júpiter Maçã, Stereolab e outros estão todas muito bem realizadas no som dos Mutantes.
Quando lançou seu antológico "Hello Nasty", o trio de hip-hop Beastie Boys creditou à música brasileira o seu novo fôlego criativo. "Acho que isso se deve ao fato de que ouvimos um pouco de música brasileira: Tom Jobim, Jorge Ben Jor, Mutantes", disse Adam Yauch, dos Beastie Boys.
Mutantes. "Uma criatura que era estranha e bela demais para viver por muito tempo, mas forte o suficiente para viver para sempre", escreveu Byrne na apresentação do CD. Por baixo da aparência bicho grilo, Os Mutantes perseguiram um som sofisticado até o fim dos anos 60, com o suporte teórico de Rogério Duprat. Nos 70, começou o seu declínio.
"Everything Is Possible" tem faixas extraídas dos seis discos que os Mutantes lançaram até 1973, pela Polydor. Possui pequenas maravilhas como a versão em inglês de "Baby", que veio do disco "Technicolor" - gravado em 1970 para a Polydor da Inglaterra, com versões inéditas de vários hits do grupo, com letras em inglês. A gravadora britânica, que buscava conquistar o mercado internacional para os Mutantes, desistiu do lançamento na época e a filial brasileira não se interessou pelo material.
As outras canções da coletânea saíram de "Os Mutantes" (1968, que teve participação de Dirceu, na bateria), "Os Mutantes" (1969, também Polydor, com participação de Liminha na guitarra e Ronaldo Leme na bateria), "Ando meio Desligado" (da Polydor, de 1970, com participação da guitarra de Raphael Vilardi, do baixo de Liminha, da bateria de Ronaldo Leme, da percussão de Naná Vasconcelos e com arranjos do maestro Rogério Duprat), "Jardim Elétrico" (da Polydor, de 1971) e de "Os Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets" (Polydor, de 1972).
Algumas faixas são besteira pura, como "Cantor de Mambo" (que é do disco "No País dos Baurets", de 1972), um bolerão com guitarras que anteciparia o estilo de bandas como Café Tacuba e outras da atualidade. O deboche do portunhol e os fraseados de rock com rumba não levam a lugar nenhum, apenas à diversão. O arranjo ripongo bolado pelo produtor Manoel Barenbein para "Le Premier Bonheur du Jour" (que Rita Lee canta em francês) é só para tirar uma onda em estúdio.
Mas o que são as fusões de cânticos religiosos de umbanda com batucada de roda de faixas como "Adeus Maria Fulô" e a inacreditável odisséia concretista de "Bat Macumba", dissonante, desconstrutiva? Se não são revolucionárias, nada mais será.
Os Mutantes começaram a ganhar fama recente nos Estados Unidos a partir de elogios de gente como (pasme!) Kurt Cobain, do Nirvana. Mas há uma história prosaica sobre a origem do culto americano aos Mutantes, contada aqui tempos atrás pelo repórter Ricardo Alexandre, que era do Zap! Tudo teria começado bem antes
nos anos 70, quando um garoto americano de 6 anos, Bill Bartell
conheceu uma menina brasileira que se hospedara na casa de seus pais, num esquema de intercâmbio.
Quando a garota voltou ao Brasil, Bill notou que ela havia esquecido o primeiro disco dos Mutantes," Os Mutantes", de 1968, que acabou se tornando o LP favorito do rapaz. Já adulto, Bartell abriu uma loja de discos chamada Gasatanka, em Los Angeles, e passou a divulgar a banda brasileira para seus amigos, gente como Steve McDonald, do Redd Kross, Ken Springfellow, dos Posies, e um curioso iniciante chamado Kurt Cobain. Bill ainda montou uma banda com alguns membros do Redd Kross e dos Germs chamada Tater Totz, especializada em covers dos Mutantes, Linda McCartney e Yoko Ono.

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