Curitiba - Experimente falar para um adolescente a expressão ''vire o disco''. Primeiro você vai ter que explicar que lá pelos idos de 1980 era isso mesmo que se escutava, um disco, grande, preto e que tinha dois lados, o A e o B. O lado A geralmente trazia os hits mais escutados dos artistas. Mas o lado B sempre escondia algumas pérolas. Para escutar o segundo lado, você tinha que necessariamente levantar da poltrona, virar o disco (touchè), colocar cuidadosamente a agulha sobre a faixa escolhida para só então poder voltar aos seus afazeres. Nada de controle remoto, CDs, MP3s e afins. Escutar música era algo manual mesmo. Agora imagine que todo esse trabalho continua sendo prazeroso para algumas pessoas, que o preferem às tecnologias modernas.
É o caso do comerciante Djalma Ramos, de 51 anos, ele não só mantém em casa toda uma coleção de LPs, fitas cassetes, cartuchos (precursos das fitas, difícil de encontrar até mesmo em museus), rolos e compactos como faz questão de manter em funcionamento todo o arsenal necessário para ouvir o material, também mantido em ótimo estado. A maior parte da parafernália foi herdada do irmão, o advogado Edgar Ramos, que morreu há seis anos, mas depois ele foi adquirindo aparelhos e acervos novos. ''Eu sempre dei valor às coisas mais antigas. Acho que para você ter algo no futuro, é preciso entender o passado'', conta.
Ramos já se encantou por carros antigos, começou uma coleção de celulares com os primeiros aparelhos que surgiram, mas decidiu se dedicar aos discos, cartuchos e aparelhagens depois de ganhar boa parte do material. Na garagem de casa, ele montou uma estante para ''abrigar'' todo o equipamento e agora já está ampliando o espaço que deve ganhar novidades em breve. São aparelhos de som que datam de um passado não tão distante assim, mas que já se tornaram raridade. O aparelho para ouvir os cartuchos, por exemplo, é muito difícil de encontrar em qualquer loja do ramo. O mesmo pode se dizer do aparelho para ouvir os mais de 400 rolos de fita da coleção do comerciante.
''É complicado encontrar mão-de-obra especializada para consertar esses equipamentos, bem como as peças. As agulhas para o aparelho de som, por exemplo, só foram encontradas em São Paulo'', revela. Mesmo com toda a dificuldade. Ramos não se intimida na hora de manter o acervo. ''Eu gosto de música boa e o tipo de música que tenho aqui, não encontro mais, salvo raras excessões que foram gravadas em CD''. São compactos de Nat King Cole, datados da década de 40; Miles Davis, Stardust, entre outras pérolas em ótimo estado de conservação. ''Se você olhar qualquer disco, não tem um arranhão. As fitas também estão ótimas'', avalia Ramos.
Ele ainda não conseguiu escutar toda a coleção. O faz sem pressa, depois das 23 horas e nos finais de semana, quando os compromissos profissionais permitem. Numa avaliação superficial, Ramos estima ter mais de 200 LPs, mais algumas centenas de compactos, cerca de 400 rolos de fita e outras dezenas de cartuchos. ''Jazz é o que mais tem, mas tem muita coisa chata também'', brinca Ramos. Mas o estilo para ele, não importa. ''A música para ser boa, tem que entrar no coração e fluir pela alma'', considera, concluindo: ''E aqui eu consigo encontrar esse material''.
A tarefa também é solitária. ''Tenho três filhas, mas nenhuma se interessa. Dizem que é coisa de velho'', brinca o comerciante. Mas quem tem saudades das antigas tecnologias e já se desfez dos bolachões, fitas e afins, pode encontrar farto material no Museu da Imagem e do Som (MIS) em Curitiba. Só de LPs, o MIS tem cerca de 20 mil unidades, num acervo que reúne desde música popular brasileira e internacional, até músicas clássicas e paranaenses. O museu fica na Rua Máximo João Kopp, 274. O telefone é (41) 3351-6683.

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